Generais temem risco à soberania brasileira com possível base militar dos EUA sob governo Flávio Bolsonaro
Cúpula do Exército avalia ampliar atuação contra facções criminosas, mas vê riscos em uma eventual presença militar permanente dos Estados Unidos no Brasil.
A cúpula do Exército brasileiro avalia possíveis mudanças na atuação das Forças Armadas no combate ao crime organizado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo reportagem do UOL, publicada nesta quinta-feira (8), generais admitem ampliar a cooperação militar com os órgãos de segurança pública, mas demonstram preocupação com a possibilidade de instalação de uma base militar dos Estados Unidos em território nacional.
As avaliações foram feitas por oficiais-generais durante reuniões do Alto Comando do Exército, considerando as propostas de segurança pública de Flávio e a política militar do governo de Donald Trump para a América do Sul. O tema envolve diretamente a soberania brasileira e os limites da participação estrangeira em operações de segurança no país.
Entre os cenários considerados está a realização de ações conjuntas entre militares brasileiros e estadunidenses na faixa de fronteira. Nesse modelo, o comando das operações permaneceria sob responsabilidade brasileira, com apoio operacional dos Estados Unidos. Segundo a reportagem, a maioria dos generais consultados não vê problemas nesse tipo de cooperação, semelhante aos exercícios militares realizados regularmente entre os dois países.
A preocupação aumenta diante da hipótese de instalação de uma base militar permanente dos EUA no Brasil. Para integrantes da cúpula militar, uma estrutura desse tipo poderia comprometer a autonomia estratégica nacional. A reportagem, contudo, não aponta qualquer decisão concreta de instalação de uma base no país.
Classificação de facções como terroristas amplia preocupação
Outro ponto de atenção é a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo estadunidense. Segundo os militares ouvidos pelo UOL, esse enquadramento poderia ser utilizado por Washington para justificar uma participação mais direta de suas forças em operações contra grupos criminosos em território brasileiro.
O debate ocorre em meio ao endurecimento da política de segurança dos Estados Unidos na América Latina e às preocupações brasileiras com possíveis ações unilaterais estrangeiras. A diplomacia militar entre os dois países, entretanto, mantém seus canais de comunicação e a programação de exercícios conjuntos, segundo os oficiais ouvidos pela reportagem.
Plano de Flávio prevê maior participação militar
O plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe ampliar o uso de inteligência, tecnologia e equipamentos militares para reforçar a vigilância das fronteiras. Entre as medidas está a criação de um Sistema Nacional de Fronteira, com o objetivo de dificultar a entrada e a circulação de drogas e armamentos utilizados pelas facções.
O documento prevê o emprego de recursos militares no controle territorial, mas não detalha suficientemente como as medidas seriam implementadas nem quais seriam os limites da atuação das Forças Armadas na segurança pública.
O Exército também considera a experiência da intervenção federal no Rio de Janeiro, em 2018, como referência para o debate. Na avaliação de integrantes da cúpula militar, a operação produziu resultados pontuais, mas a falta de continuidade das ações comprometeu seus efeitos após o encerramento da intervenção.
A discussão evidencia um dilema para a política de segurança brasileira: como fortalecer o combate às organizações criminosas sem comprometer a autonomia das instituições nacionais ou abrir espaço para uma presença militar estrangeira permanente. Até o momento, a possibilidade de uma base dos Estados Unidos no Brasil permanece no campo das hipóteses avaliadas pelos militares.
