Flávio Bolsonaro deixa o Brasil e chega aos EUA em operação cercada de sigilo
Relatos da imprensa argentina apontam possível apoio de autoridades ligadas a Javier Milei na passagem pela fronteira. A chegada aos Estados Unidos ocorre após decisão judicial que determinou a entrega dos passaportes do senador.
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos acompanhado da mulher e das duas filhas, em uma operação marcada pelo sigilo e por informações desencontradas sobre seu paradeiro. Segundo reportagem de Márcia Carmo, correspondente do Brasil 247 na Argentina, o senador cruzou a fronteira por Puerto Iguazú na noite de terça-feira (27) e embarcou em um jatinho privado rumo a Miami. A movimentação levantou questionamentos sobre a participação de autoridades argentinas e o apoio do governo de Donald Trump à saída do parlamentar.
De acordo com o Ministério do Interior argentino, a família entrou no país às 22h50, pela ponte internacional Tancredo Neves, que liga Brasil e Argentina. Cerca de 40 minutos depois, embarcou em uma aeronave da empresa Baires Fly S.A., com destino a Guayaquil, no Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos. A imprensa argentina também noticiou que Santiago Caputo, assessor presidencial de Javier Milei, teria aguardado Flávio na área de entrada da alfândega. A possível participação direta do governo argentino na operação, entretanto, é uma informação atribuída pela reportagem à imprensa local e ainda exige esclarecimentos oficiais.
A saída aconteceu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a entrega dos passaportes brasileiro e diplomático do senador, atendendo a um pedido da Polícia Federal. O prazo terminou sem a apresentação dos documentos. Segundo as informações publicadas pelo UOL e pela CNN Brasil, Flávio possui cidadania italiana, o que pode ter permitido a viagem com um documento daquele país. A Polícia Federal havia alertado para o risco de fuga, e a decisão judicial buscava impedir que ele deixasse o território nacional.
Milei e Trump
A passagem pela Argentina e a chegada aos Estados Unidos colocam os governos de Javier Milei e Donald Trump no centro das perguntas sobre a operação. A reportagem do Brasil 247 destaca que o governo argentino informou posteriormente a entrada regular da família no país, enquanto veículos locais noticiaram possível apoio de integrantes do governo Milei. Nos Estados Unidos, o governo Trump confirmou que emitiria vistos para Flávio e seus familiares. A concessão de vistos, contudo, não equivale à concessão de asilo político.
O episódio também ganha dimensão política diante da relação entre a família Bolsonaro e setores da direita internacional. Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos e tem defendido a aproximação com aliados de Trump. Após a derrota eleitoral de Flávio para Luiz Inácio Lula da Silva, a possibilidade de articulação política no exterior passou a ser apontada por aliados como uma forma de pressionar o governo brasileiro. A confirmação de qualquer operação coordenada entre os governos, porém, depende de evidências e esclarecimentos oficiais.
As consequências políticas e judiciais
A saída do país pode ampliar o desgaste do bolsonarismo, sobretudo porque ocorre após uma derrota eleitoral e em meio a investigações que envolvem o senador. Flávio é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. As investigações não equivalem a uma condenação, e as acusações devem ser tratadas como suspeitas enquanto não houver decisão judicial definitiva.
O caso também abre uma nova frente de tensão entre Brasília e Washington, em um contexto no qual Trump já fez declarações questionando, sem apresentar provas, a lisura do processo eleitoral brasileiro. A presença de Flávio nos Estados Unidos poderá alimentar disputas políticas e diplomáticas, enquanto as autoridades brasileiras avaliam as consequências do descumprimento da determinação judicial.
Mais do que uma viagem, o episódio levanta questões sobre o respeito às decisões da Justiça, a atuação de aliados internacionais e as tentativas de transformar conflitos políticos internos em instrumentos de pressão externa. Os próximos passos dependerão dos esclarecimentos sobre a saída do senador e das decisões das autoridades brasileiras e norte-americanas.
