Reeleição de Lula abre caminho para ampliar parceria entre Brasil e China e fortalecer o Sul Global

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Professor chinês Jiang Shixue avalia que continuidade do governo Lula pode impulsionar a cooperação tecnológica e industrial, fortalecer o BRICS e ampliar a autonomia diplomática latino-americana.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva abre novas perspectivas para o aprofundamento das relações entre Brasil e China e para o fortalecimento da cooperação entre países do Sul Global. Essa é a avaliação do professor Jiang Shixue, da Universidade Normal de Hangzhou, em artigo publicado pelo jornal chinês Global Times e reproduzido pelo Brasil 247. Para o acadêmico, a continuidade do governo Lula favorece a manutenção da parceria estratégica entre Brasília e Pequim e amplia as possibilidades de cooperação econômica, tecnológica e diplomática. <Cite refs={[“turn386064search0″,”turn386064search9”]}/>

A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, e a relação entre os dois países avançou para além do comércio de commodities. Durante a visita do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil, em novembro de 2024, os governos decidiram elevar o nível da parceria estratégica e trabalhar na construção de uma comunidade com futuro compartilhado, orientada à promoção de um mundo mais justo e sustentável.

Segundo Jiang, o novo mandato de Lula poderá aprofundar essa aproximação e ampliar a participação chinesa em setores estratégicos para o desenvolvimento brasileiro. Entre as áreas com maior potencial estão inteligência artificial, tecnologia 5G, energias limpas, minerais críticos e economia digital. A cooperação nesses segmentos pode contribuir para a política de reindustrialização brasileira, com investimentos produtivos, inovação e transferência de tecnologia.

BRICS e a disputa por uma ordem multipolar

Outro eixo central da análise é o fortalecimento do BRICS como espaço de articulação entre economias emergentes. Para Jiang, a continuidade do governo Lula favorece a participação brasileira no bloco e a construção de iniciativas voltadas à reforma da governança global, à ampliação do comércio em moedas locais e à cooperação econômica entre países em desenvolvimento.

O professor avalia que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter aproximado o Brasil de Washington e alterado o compromisso do país com o BRICS e com a construção de uma ordem internacional multipolar. Na avaliação apresentada pelo acadêmico, a permanência de Lula cria condições para aprofundar a coordenação entre Brasília e Pequim e ampliar a influência dos países emergentes nas instituições multilaterais.

A sequência das presidências do BRICS também é apontada como uma oportunidade estratégica. Depois de o Brasil comandar o grupo em 2025, a China assumirá a presidência em 2027, abrindo espaço para a continuidade de projetos e iniciativas conjuntas.

América Latina e autonomia diante de Washington

A análise também relaciona o resultado eleitoral brasileiro à disputa geopolítica entre China e Estados Unidos e ao debate sobre a autonomia da América Latina. Jiang argumenta que Washington tem utilizado instrumentos de pressão econômica e política para preservar sua influência regional, em uma dinâmica que o professor associa à atualização da Doutrina Monroe.

Nesse contexto, o acadêmico destaca que os países latino-americanos não precisam escolher obrigatoriamente entre Estados Unidos e China. A diversificação das parcerias internacionais pode ampliar oportunidades econômicas, fortalecer a capacidade de negociação dos governos e preservar a autonomia estratégica da região.

A política externa brasileira, baseada na integração regional, no multilateralismo e na cooperação Sul-Sul, é apresentada como um instrumento importante nesse processo. Como maior economia latino-americana e integrante relevante do BRICS, o Brasil tem condições de contribuir para iniciativas que ampliem a participação dos países em desenvolvimento nas decisões internacionais.

O desafio, portanto, vai além da expansão das relações comerciais entre Brasil e China. Está em transformar a parceria em desenvolvimento industrial, domínio tecnológico e maior capacidade de decisão diante das grandes potências.

Para Jiang Shixue, o quarto mandato de Lula representa uma oportunidade de consolidar essa aproximação, ampliar a cooperação em setores de maior valor agregado e fortalecer a atuação conjunta do Sul Global. O alcance dessas perspectivas dependerá, contudo, da capacidade dos dois países de converter os compromissos diplomáticos em investimentos, projetos concretos e resultados para suas populações.

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Leticia Vieira de Mendonça

Letícia Mendonça é cientista social formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pesquisadora, professora, social mídia e colunista do Canal Pororoca. Se debruça no estudos sobre violência urbana, segurança pública, desigualdades sociais e dinâmicas territoriais.

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