Flávio Bolsonaro esconde detalhes da fuga para os EUA e contradiz informações sobre apoio da Casa Branca
Em entrevista ao New York Times, senador afirma que organizou sozinho a saída do Brasil e diz que levará os detalhes para o túmulo. Reportagem aponta que um funcionário da Casa Branca providenciou o avião utilizado na viagem.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que jamais revelará como deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos. Em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times, publicada nesta quinta-feira (5), o parlamentar negou ter recebido ajuda de governos estrangeiros e sustentou que organizou a viagem por conta própria. Questionado sobre os detalhes do deslocamento, respondeu: “Como cheguei até aqui, levarei isso para o túmulo comigo”.
A declaração contrasta com informações obtidas pelo próprio jornal, segundo as quais um funcionário da Casa Branca providenciou o avião particular utilizado pelo senador para chegar a Miami. Autoridades norte-americanas também relataram que a entrada de Flávio nos Estados Unidos recebeu autorização direta do presidente Donald Trump. O parlamentar, porém, negou qualquer participação de governos na organização de sua saída e afirmou que a decisão foi tomada espontaneamente, em conjunto com a esposa.
A viagem ocorreu depois da derrota de Flávio na eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de uma determinação para que entregasse seus passaportes às autoridades brasileiras. Segundo o senador, ele recebeu a informação de que teria 24 horas para cumprir a ordem. Pouco depois, publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que não pretendia deixar o país. Cerca de 42 horas mais tarde, reapareceu em Miami, nos Estados Unidos.
Saída do país ocorreu após derrota eleitoral e ordem sobre passaportes
Na entrevista, Flávio relatou que decidiu deixar o Brasil após uma conversa com o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em razão da condenação por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Segundo o senador, o ex-presidente demonstrou preocupação com o que poderia acontecer e os dois se despediram sem discutir um plano de saída do país.
Flávio afirmou que temia ser preso caso permanecesse no Brasil. “Eu já sei que o desfecho final será a minha prisão”, declarou. O parlamentar é alvo de investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas não havia sido formalmente acusado de nenhum crime até a publicação da entrevista, segundo o New York Times. Ele nega irregularidades e atribui sua situação a uma suposta perseguição política do Judiciário.
A saída do senador também ocorreu em meio a questionamentos sobre o trajeto e os responsáveis pela logística da viagem. Reportagens da imprensa internacional apontaram a utilização de um jato particular providenciado por Jason Miller, ligado à administração Trump. Na passagem pela Argentina, o assessor de Javier Milei, Santiago Caputo, também teria acompanhado a operação, segundo informações publicadas pelo jornal argentino Clarín. Flávio nega ter recebido auxílio de terceiros na organização da viagem.
Do exterior, senador volta a atacar as instituições brasileiras
Instalado na região de Miami, Flávio voltou a contestar a vitória de Lula, classificando o resultado como “matematicamente impossível”, mas sem apresentar provas de fraude eleitoral. O senador também afirmou que perdeu para “o sistema” e questionou decisões da Justiça Eleitoral relacionadas à organização da votação.
As alegações não foram acompanhadas de evidências capazes de comprometer o resultado. A ampliação do horário de votação em algumas regiões ocorreu em razão de dificuldades de deslocamento de eleitores provocadas por chuvas e problemas no transporte. A medida foi solicitada pelos dois candidatos e, segundo as autoridades eleitorais, atingiu um número de votos insuficiente para alterar o resultado da disputa.
O senador também elogiou a postura de Donald Trump diante da eleição brasileira e agradeceu ao presidente norte-americano pela autorização para permanecer nos Estados Unidos. A relação com o governo dos EUA ganha relevância diante das informações sobre a participação de integrantes da Casa Branca na logística de sua chegada ao país.
Flávio pretende manter atuação política a partir dos Estados Unidos
Mesmo no exterior, Flávio afirmou que pretende continuar atuando na política brasileira, mobilizar aliados no Congresso e contestar judicialmente o resultado eleitoral, embora reconheça que as chances de reverter a derrota são pequenas. Também declarou que pretende defender medidas como a redução da maioridade penal e uma anistia que beneficie Jair Bolsonaro e os condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023.
O senador não descartou uma nova candidatura presidencial caso sejam convocadas outras eleições. Enquanto isso, afirmou que pretende permanecer nos Estados Unidos com a esposa e as filhas por pelo menos um ano, período para o qual a família recebeu autorização migratória.
Se Flávio Bolsonaro afirma que organizou sozinho a viagem, por que as informações reunidas pelo New York Times apontam a participação de pessoas ligadas ao governo Trump na logística de sua chegada? A recusa em esclarecer o trajeto mantém sob questionamento as circunstâncias da saída do país, especialmente porque ela ocorreu depois de uma ordem relacionada à entrega de seus passaportes e foi precedida por uma declaração pública de que não deixaria o Brasil.
