Erika Hilton vê queda de Peña como fragilidade da aliança conservadora na América do Sul
Deputada do PSOL relaciona o enfraquecimento do presidente paraguaio à perda de força de aliados de Donald Trump na região. Peña anunciou renúncia após escândalo bancário, mas a Câmara rejeitou sua saída e aprovou a abertura de impeachment.
A crise política que atingiu o presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi interpretada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) como uma derrota para o bolsonarismo e seus aliados na América do Sul. Em publicação nas redes sociais nesta quinta-feira (5), a parlamentar classificou Peña como um dos principais aliados de Jair Bolsonaro e Donald Trump na região e associou o desgaste do governo paraguaio ao enfraquecimento da extrema direita latino-americana.
A manifestação ocorreu depois que Peña anunciou sua renúncia à Presidência, pressionado pelo colapso do Ueno Bank e pela perda de apoio dentro do próprio Partido Colorado. A crise financeira atingiu milhões de correntistas e provocou uma reação política que chegou ao Congresso. A Câmara dos Deputados rejeitou a renúncia e aprovou, por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment contra o presidente. O procedimento foi encaminhado ao Senado.
Ao comentar o episódio, Erika Hilton também fez referência ao presidente argentino Javier Milei, outro aliado de Trump e do campo conservador regional. A avaliação da deputada situa a crise paraguaia em uma disputa política mais ampla, na qual governos alinhados à direita internacional enfrentam questionamentos sobre suas políticas e sua capacidade de sustentação.
Crise bancária rompeu a sustentação de Peña
O desgaste de Santiago Peña se intensificou após a intervenção do Banco Central paraguaio no Ueno Bank, instituição que atendia aproximadamente 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos. A medida foi adotada depois que a autoridade monetária identificou problemas graves de solvência, relacionados a operações de crédito concedidas a empresas vinculadas ao grupo controlador do banco.
A suspensão das operações deixou correntistas sem acesso às contas e provocou protestos. A crise também levantou questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e a presença de recursos públicos na instituição. O presidente havia sido acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. A oposição passou a cobrar explicações sobre possíveis conflitos de interesses e responsabilidades do governo na condução do caso.
O escândalo atingiu também a autoridade monetária. Carlos Carvallo, que havia presidido o Ueno antes de assumir o comando do Banco Central, deixou o cargo após o agravamento da crise. O Ministério Público abriu investigações sobre as operações da instituição, enquanto dirigentes e pessoas ligadas ao banco passaram a responder a acusações. As responsabilidades individuais ainda precisam ser estabelecidas pelas autoridades.
Aliado de Trump perde apoio dentro do próprio partido
Peña chegou à Presidência em agosto de 2023 como representante do Partido Colorado, força política tradicionalmente dominante no Paraguai. Durante seu governo, manteve proximidade com Donald Trump e integrou articulações regionais alinhadas à agenda do presidente norte-americano. Ao mesmo tempo, cultivou relações institucionais com outros governos da região, inclusive o de Luiz Inácio Lula da Silva.
A crise do Ueno Bank provocou uma ruptura dentro da própria base governista. Horacio Cartes, principal liderança do Partido Colorado e responsável por impulsionar a candidatura de Peña, retirou seu apoio ao presidente. A perda de sustentação política abriu caminho para que parlamentares governistas se juntassem à oposição na aprovação do impeachment.
A tentativa de renúncia não encerrou a disputa. Parlamentares defenderam a continuidade do processo para impedir que Peña deixasse o cargo com as prerrogativas de senador vitalício previstas na Constituição paraguaia para ex-presidentes que não sejam destituídos. Com a aprovação da acusação pela Câmara, a decisão sobre o julgamento político passou ao Senado.
Crise paraguaia expõe limites da articulação conservadora regional
A leitura de Erika Hilton aponta para uma dimensão regional do episódio. Peña era um dos presidentes próximos ao campo político de Trump na América do Sul, ao lado de Javier Milei.
O vice-presidente Pedro Alliana, que poderá assumir o comando do país caso a saída de Peña seja formalizada, também pertence ao Partido Colorado. Portanto, a crise não produz automaticamente uma vitória da oposição ou uma mudança de campo político no Executivo paraguaio.
Uma crise financeira pode comprometer a sustentação de um governo quando atinge diretamente a população e expõe relações entre poder político, interesses empresariais e instituições de fiscalização. A renúncia anunciada por Peña e o avanço do impeachment mostram a dimensão da ruptura dentro do sistema político paraguaio.
Para os aliados regionais da extrema direita, a crise representa um alerta: a proximidade com lideranças internacionais não protege governos quando escândalos internos corroem sua legitimidade e sua base de apoio.
