A luta por sobrevivência e dignidade dos povos originários continua.
Em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte, o líder indígena Ailton Krenak subiu à tribuna para denunciar as agressões contra os povos originários e defender o reconhecimento de seus direitos territoriais. Enquanto discursava, pintou o rosto com tinta preta de jenipapo, gesto de luto e indignação diante das ameaças à existência dos povos indígenas. Quase quatro décadas depois, a denúncia permanece atual: comunidades indígenas voltam a ser alvo de ameaças, intimidações e violência, agora também em episódios registrados após o segundo turno das eleições de 2026.
O pronunciamento de Krenak, realizado em 4 de setembro de 1987, ocorreu em meio a uma ofensiva contra a inclusão dos direitos indígenas no texto constitucional. Na ocasião, o líder criticou os setores que apresentavam os povos originários como obstáculos ao desenvolvimento nacional, expondo os interesses econômicos por trás das tentativas de retirar suas garantias territoriais. Sua manifestação tornou-se um dos momentos mais emblemáticos da Constituinte e contribuiu para dar visibilidade à mobilização indígena pela inclusão de seus direitos na Constituição de 1988.
A realidade denunciada naquele plenário continua presente nos territórios. Em Mato Grosso do Sul, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciou uma série de ameaças contra comunidades indígenas após o segundo turno, realizado em 25 de outubro. Entre os episódios está a divulgação de áudios nos quais homens ameaçam envenenar a água consumida pelos indígenas da aldeia Sassoró, no município de Tacuru. As mensagens também contêm ofensas racistas e manifestações de hostilidade contra os povos originários.
A gravidade das ameaças levou órgãos federais a iniciar apurações. Dois servidores municipais foram identificados como envolvidos na gravação e divulgação dos áudios, e o caso passou a ser investigado pela Polícia Federal. A Apib também relatou ocorrências de intimidação, ameaças de morte e outros ataques em comunidades indígenas do estado. As denúncias mostram que a disputa pela terra e a discriminação contra os povos originários continuam produzindo situações de violência que ultrapassam o campo dos conflitos fundiários.
A Constituição Federal de 1988 reconheceu, em seus artigos 231 e 232, os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras tradicionalmente ocupadas, além de assegurar o respeito à sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. Entretanto, o reconhecimento legal não encerrou as disputas. A pressão de interesses econômicos sobre os territórios, as dificuldades para efetivar demarcações e as ameaças às comunidades demonstram a distância entre os direitos garantidos pela Constituição e a realidade enfrentada por essas populações.
Quando Ailton Krenak pintou o rosto diante dos constituintes, denunciava uma violência que tentava transformar os povos indígenas em inimigos do próprio país. Hoje, as ameaças contra comunidades que lutam para permanecer em seus territórios revelam a continuidade dessa lógica. A luta indígena permanece como uma exigência de justiça, respeito à diversidade dos povos e garantia do direito de existir.
