PT precisa recuperar a democracia interna e reconectar sua direção à militância

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O Partido dos Trabalhadores não pode se afastar daquilo que constituiu sua identidade histórica: a participação de sua militância, a organização de base e a construção coletiva de suas decisões. Sob a presidência de Edinho Silva, entretanto, a condução partidária tem sido marcada pela concentração de decisões e pela ausência de diálogo efetivo com as instâncias de direção. 

A Executiva Nacional, o Diretório e a própria militância não podem ser reduzidos a espaços de homologação de decisões tomadas individualmente. Um partido que nasceu da organização popular não pode funcionar de cima para baixo, tampouco se transformar em simples correia de transmissão das vontades do governo ou do presidente da República.

Essa concentração enfraquece a vida interna do PT, reduz a participação de seus quadros e compromete a capacidade de mobilização organizada. O sinal de alerta está na própria dinâmica das manifestações políticas: enquanto a direção partidária precisa recuperar sua capacidade de convocação, movimentos espontâneos, especialmente entre a juventude, têm assumido protagonismo nas ruas. 

A energia militante continua existindo, mas nem sempre encontra na estrutura partidária os canais de participação e organização necessários para se transformar em força política permanente. Não basta celebrar a mobilização quando ela acontece; é preciso compreender por que a direção já não ocupa, em determinadas circunstâncias, o mesmo lugar na articulação dessas iniciativas.

O PT precisa enfrentar esse problema com profundidade. A realização de um congresso partidário torna-se necessária para discutir os rumos da organização, recuperar a democracia interna, fortalecer suas instâncias e preparar o partido para os desafios de uma sociedade em transformação. A política já não acontece apenas nos espaços físicos de reunião, nos diretórios e nas manifestações de rua.

 O mundo é, simultaneamente, real e virtual. As tecnologias aceleram a circulação de informações, modificam as formas de organização e criam novas possibilidades de participação. Ignorar essas transformações significa perder a capacidade de dialogar com setores que já encontram outros caminhos para expressar suas demandas e construir mobilizações.

Também não se sustenta a alegação de que ouvir a militância seria um processo lento ou operacionalmente inviável. As ferramentas digitais permitem consultas, pesquisas e mecanismos de participação capazes de alcançar rapidamente filiados e dirigentes em diferentes regiões do país. A tecnologia pode aproximar a direção das bases, desde que exista disposição política para escutá-las. O problema, portanto, não é a falta de instrumentos, mas a concentração das decisões e a ausência de uma cultura efetiva de consulta e deliberação coletiva.

Um partido com a história e a dimensão do PT precisa de mais vida interna, não de menos. Precisa de uma direção que coordene, articule e escute, e não que concentre em si as decisões que deveriam ser construídas coletivamente. A força de uma organização partidária se mede pela capacidade de mobilizar sua base, formar novos quadros, acolher divergências e construir respostas para os desafios do presente.

 Sem recuperar essa dinâmica, o PT corre o risco de preservar sua estrutura formal enquanto enfraquece justamente aquilo que lhe dá sustentação política: sua militância.

Francisco Celso Calmon

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Leticia Vieira de Mendonça

Letícia Mendonça é cientista social formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pesquisadora, professora, social mídia e colunista do Canal Pororoca. Se debruça no estudos sobre violência urbana, segurança pública, desigualdades sociais e dinâmicas territoriais.

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