Carta aberta ao companheiro Boulos: sua responsabilidade é do tamanho da sua grandeza
Há momentos na política em que a maior demonstração de liderança não é disputar um cargo, mas compreender o papel que a história reserva a cada um.
Ao abrir mão de uma candidatura própria para atender ao chamado do presidente Lula e fortalecer a unidade do campo democrático, Guilherme Boulos deu um passo de disciplina e de maturidade política.
Num cenário em que a extrema-direita mantém razoável capacidade de mobilização, a esquerda enfrenta um desafio que vai para além das eleições. É preciso reconstruir vínculos sociais, ocupar as ruas, fomentar a criação de organização de base, formar novas lideranças e dialogar com uma geração que não viveu nem as grandes conquistas dos governos petistas e nem os anos duros da ditadura.
Poucos possuem essa capacidade hoje!
Boulos é, talvez, é um dos únicos ministros do governo que reúne três atributos raros ao mesmo tempo: reconhecimento popular, legitimidade junto aos movimentos sociais e capacidade de mobilização nacional. É um organizador político.
Essa talvez seja a sua principal missão neste momento.
Boulos pode ser convocado para algo igualmente decisivo: ajudar a reorganizar a base social do campo democrático.
O governo Lula precisará, cada vez mais, de alguém capaz de transformar apoio institucional em participação popular. Alguém que dialogue com trabalhadores, juventude, periferias, movimentos de moradia, sindicatos e de forma geral com as organizações da sociedade civil.
Nenhum projeto democrático sobrevive apenas dentro dos gabinetes. As grandes transformações brasileiras sempre dependeram de pressão social organizada.
Foi assim na campanha das Diretas Já.
Foi assim na Constituinte.Foi assim na resistência aos ataques à democracia.
Está sendo assim na luta pelo fim da escala 6×1 e da diminuição da carga horária de trabalho.
É justamente nesse espaço que Boulos pode cumprir um papel que poucos conseguiriam exercer.
Ao aceitar permanecer no governo em vez de protagonizar uma disputa eleitoral, ele amplia seu horizonte político. No lugar de se limitar ao calendário das urnas, passa a disputar algo muito maior: sua estatura como liderança nacional.
A história brasileira mostra que grandes lideranças se consolidam quando conseguem representar um projeto de país.
Se conseguir fortalecer a mobilização popular, defender o governo quando necessário, formular um programa para o futuro e construir pontes entre diferentes setores da esquerda, Boulos poderá sair deste ciclo político maior do que entrou.
Não como herdeiro do Lula. Mas como alguém capaz de escrever seu próprio capítulo na história da esquerda brasileira.
O Brasil precisará, em muito breve, renovar suas lideranças nacionais.
Essa renovação não deve ser fruto de marketing, de algoritmos ou de campanhas milionárias.
Ela deve nascer da capacidade de organizar pessoas, formular ideias e defender a construção da democracia sempre.
O gesto de abrir mão de uma candidatura pode parecer, para alguns, um recuo. Mas, na política, há momentos em que um passo para o lado permite enxergar um horizonte muito mais amplo.
Se souber aproveitar essa oportunidade, Guilherme Boulos não estará apenas compondo o governo Lula, estará construindo as credenciais para, no futuro, disputar algo ainda maior: a confiança de um país inteiro para liderar um novo ciclo democrático.
A responsabilidade é enorme.
E talvez, nenhum outro ministro, lideranças sociais e partidárias, tenham hoje condições tão favoráveis para assumi-las como as de Bulos.
Essa carta está aberta do Canal Pororoca, sob responsabilidades do editor Francisco Celso Calmon e de sua assistente Letícia Mendonça, é um chamamento à reflexão do devir político do Brasil.
