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Caso Banco Master expõe crise de governança financeira e tensiona relação entre STF, Banco Central e mercado

A liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, tornou-se um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. O caso envolve suspeitas de fraudes bilionárias, disputas institucionais entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a autoridade monetária, decisões controversas do ministro Dias Toffoli e a tentativa frustrada de venda do banco ao Banco de Brasília (BRB).

No centro da crise está Daniel Vorcaro, fundador e controlador do Banco Master, investigado por gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. A apuração conduzida pela Polícia Federal aponta para a criação e comercialização de carteiras de crédito sem lastro consistente, utilizadas como base para negociações com o BRB e para sustentar um modelo de captação considerado arriscado pelo mercado.

Um modelo sob suspeita

Antes da intervenção, o Banco Master já era visto com cautela por técnicos e agentes financeiros. A instituição operava fortemente na emissão de títulos de renda fixa garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), oferecendo taxas acima da média do mercado — prática que costuma sinalizar estresse de liquidez.

Segundo o Banco Central, a fiscalização identificou uma grave crise de liquidez e comprometimento significativo da situação econômico-financeira do conglomerado. Foram encontrados R$ 12,2 bilhões em créditos problemáticos, parte deles vendidos ao BRB. Desse total, R$ 2,5 bilhões não teriam sido recuperados, segundo o ex-presidente do banco estatal, Paulo Henrique Costa.

A tentativa de venda ao BRB

Em março de 2025, o Conselho de Administração do BRB aprovou, por unanimidade, a compra do Banco Master. O acordo previa a aquisição de 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total da instituição privada. O negócio avançou no plano político e administrativo: foi aprovado pelo Cade em junho e pela Câmara Legislativa do Distrito Federal em agosto, com sanção do governador Ibaneis Rocha.

Faltava apenas o aval do Banco Central. Ele não veio. Em 3 de setembro de 2025, o BC rejeitou formalmente a operação.

Pouco depois, em novembro, um novo fato agravou a situação: a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Master em parceria com investidores dos Emirados Árabes, prometendo um aporte imediato de R$ 3 bilhões. Menos de 24 horas depois, o Banco Central decretou o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) e a liquidação extrajudicial do banco, inviabilizando qualquer solução de mercado.

Prisão, operação policial e liquidação

No dia 17 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi preso no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para os Emirados Árabes. A Polícia Federal alegou risco de fuga. No dia seguinte, foi deflagrada a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes na composição das carteiras de crédito do banco. Em 18 de novembro, o Banco Central confirmou a liquidação do Master.

A prisão foi mantida até 29 de novembro, quando Vorcaro obteve habeas corpus no TRF-1.

STF entra no centro do caso

A partir de dezembro, o caso passou a tramitar diretamente no STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, após surgirem indícios de possível envolvimento de autoridades com foro privilegiado. Toffoli determinou que todas as novas diligências da investigação fossem previamente autorizadas pela Corte, retirando a condução exclusiva da Justiça Federal.

O ministro também decretou sigilo máximo sobre pedidos da defesa de Vorcaro e tomou uma decisão inédita: determinou a acareação entre o dono do banco, o ex-presidente do BRB e um diretor do Banco Central, Ailton de Aquino Santos.

A medida provocou forte reação do mercado e da autoridade monetária. O Banco Central questionou formalmente o STF, alegando risco de constrangimento institucional e pedindo esclarecimentos sobre a condição do seu diretor — se seria tratado como testemunha ou investigado. Toffoli negou o pedido e manteve a acareação, afirmando que a urgência se justificava pela “significativa interferência dos fatos no sistema financeiro brasileiro”.

Depoimentos e contradições

No dia 30 de dezembro, a Polícia Federal colheu os depoimentos de Vorcaro, Paulo Henrique Costa e Ailton de Aquino, sob condução da delegada Janaína Palazzo. As oitivas duraram horas e revelaram contradições relevantes entre as versões do dono do Master e do ex-presidente do BRB, o que levou à realização imediata da acareação entre ambos. O diretor do BC foi dispensado dessa etapa.

Vorcaro afirmou que o banco era solvente até a data da liquidação, negou a venda de carteiras falsas e criticou a atuação do Banco Central, alegando demora na fiscalização. Disse ainda ter feito um aporte pessoal de R$ 6 bilhões e ressaltou que clientes sacaram cerca de R$ 10 bilhões ao longo do ano sem prejuízos.

Costa, por sua vez, declarou que o BRB não conseguiu recuperar R$ 2,5 bilhões devido à liquidação do Master e que a compra das carteiras foi interrompida pela intervenção do BC. Investigadores consideraram os relatos divergentes e inconsistentes.

Mercado reage e Banco Central sai fortalecido

Para agentes do sistema financeiro, a atuação do STF levanta dúvidas sobre a separação entre controle judicial e supervisão técnica. Banqueiros avaliam que uma eventual reversão da liquidação não protegeria correntistas nem credores, mas beneficiaria exclusivamente o controlador do banco.

O Banco Central, por outro lado, saiu fortalecido após os depoimentos. A avaliação predominante é de que a autoridade agiu dentro de suas atribuições legais ao identificar riscos sistêmicos e decretar a liquidação para proteger o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos.

Um caso que vai além de um banco

O Caso Master tornou-se um episódio emblemático de tensão institucional, envolvendo o papel do Judiciário, os limites da intervenção judicial em decisões técnicas e a estabilidade do sistema financeiro nacional. Também expôs os riscos de modelos bancários baseados em captação agressiva e confiança excessiva na proteção do FGC.

Interesse público em jogo

A crise do Banco Master recoloca no centro do debate o papel do Estado na regulação financeira. Proteger depositantes e garantir estabilidade não pode significar tolerar modelos temerários nem permitir que decisões técnicas sejam capturadas por disputas judiciais.

O episódio evidencia a necessidade de reforçar a autonomia do Banco Central, estabelecer limites claros à interferência judicial em matéria regulatória e ampliar a responsabilização de dirigentes que adotam estratégias de alto risco.

O que está em jogo não é apenas o destino de uma instituição financeira, mas a credibilidade do sistema financeiro brasileiro e a capacidade do Estado de agir em defesa do interesse público.

Fonte das informações: O Globo, Brasil 247, Estadão, Jornal Opção, Carta Capital, Poder360 e CNN Brasil.

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