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Não há julgamento justo após o sequestro: Maduro e a farsa da justiça dos EUA

Fonte: Texto publicado na íntegra pelo jornal cubano Juventud Rebelde. Tradução própria.

Diante do fato consumado do sequestro de Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores em Nova York, não faltaram, nos últimos dias, aqueles que, em distintas partes do mundo e a partir de diversos estamentos, seguramente guiados pela boa-fé, clamaram, ao menos, por um “julgamento justo”.

Esse estado de desejo, por melhor que seja a intenção ou o sentimento que o motive, ignora dois elementos essenciais:

  1. O questionável estado da justiça norte-americana, sobre o qual existe um intenso debate acerca de sua politização na própria sociedade dos Estados Unidos.
  2. O julgamento de ambos os líderes da Revolução Bolivariana extrapola descaradamente seus limites, configurando-se como um capítulo — seguramente em forma de espetáculo, como gostam os ianques, sobretudo os da atual administração — de propósitos mais escusos e de maior alcance estratégico para o novo fascismo dos Estados Unidos.

Processos muito conhecidos, tanto no interior dos Estados Unidos quanto envolvendo figuras de outros países perseguidas pelos estamentos “legais” dessa nação, demonstram que não falta razão para o profundo e intenso debate existente naquela sociedade sobre a politização da justiça. O anterior tem como um de seus eixos centrais de questionamento, precisamente, a politização do departamento estatal encarregado de administrá-la.

Seria necessário aprofundar, inclusive, se a judicialização da política no continente, tendo como principal alvo líderes de esquerda, não é filha adotiva dessa degradação. A polêmica chega ao ponto de se afirmar que foi rompida a norma pós-Watergate de independência dessa instância, com o propósito de perseguir inimigos políticos.

Como exemplo clássico dessa deriva, apresenta-se a demissão de mais de uma dezena de promotores em 2025, juntamente com o anúncio de um projeto especial para investigar representantes públicos que processaram os participantes do assalto ao Capitólio, sob o suposto de liderarem um cartel mafioso que foi propagado aos quatro ventos pelos principais personagens do atual governo fascista norte-americano.

Com Maduro sequestrado em Nova York, o Departamento de Justiça abandonou a narrativa impulsionada pelo mentiroso e manipulador compulsivo Donald Trump e reformulou o caso para classificá-lo como uma rede de corrupção estatal, e não como um cartel formal de drogas.

Meios internacionais relatam que, enquanto na acusação anterior se mencionava 32 vezes o Cartel dos Sóis e se descrevia Maduro como seu líder, na versão “corrigida” ele é citado apenas duas vezes, afirmando-se que este, assim como Hugo Chávez Frías, participou desse sistema de patrocínio, o perpetuou e o protegeu.

Isso ocorreu apesar de que, na chamada Avaliação Nacional da Ameaça das Drogas, realizada anualmente pela Administração de Controle de Drogas (DEA), o Cartel dos Sóis jamais foi mencionado, algo que tampouco apareceu no relatório anual do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Delito.

Como fica agora a acusação contra Maduro, apresentada a um grande júri em 2020, sobre sua liderança no Cartel dos Sóis, redigida pelo Departamento de Justiça? Como fica o Departamento do Tesouro, que copiou o texto e designou esse cartel como organização terrorista? Nos últimos dias, sequer quiseram responder às ligações da imprensa.

Também cabe perguntar como fica a ordem de Marco Rubio ao Departamento de Estado para fazer o mesmo. O mentiroso congênito segue especulando nos meios de comunicação sobre um cartel que seu próprio Departamento de Justiça reconhece que não existe.

Até mesmo a chamada Associação de Agentes do Bureau Federal de Investigações (FBI) entrou no debate crítico, diante de demissões e investigações em curso contra seus membros, apontando-as como parte de uma campanha de represália errática e arbitrária.

O certo é que existem múltiplos escândalos de alto perfil, com ampla cobertura midiática, sobre os quais bastaria investigar o ano de 2025, nos quais fica questionada a participação do poder executivo ianque ao utilizar ferramentas do Estado para hostilizar e eliminar oponentes políticos. Se isso ocorre internamente, o que restará para os inimigos externos?

É extremamente simbólico que seja justamente Barry Pollack, o advogado norte-americano que defendeu Julian Assange, quem passe a representar Maduro. Está muito claro que esse prestigiado jurista saltou da defesa de um caso com todos os matizes de manipulação política para o do líder bolivariano sequestrado e prisioneiro de guerra, de perfil semelhante.

Aqueles que clamam por um julgamento justo deveriam se perguntar por que o governo ianque, antes mesmo de o julgamento começar, já começou a ajustar o processo contra Nicolás Maduro, aparentemente suavizando o tom da acusação.

Não se pode ignorar, contudo, que Maduro foi sequestrado em meio a uma brutal agressão contra a Venezuela, que viola todas as normas do direito internacional. E, sobretudo, como fica o ataque prepotente e brutal contra o território venezuelano e contra a ordem mundial vigente, com o custo de cerca de uma centena de vidas humanas, entre elas 32 heróis cubanos? Uma agressão contra todas as normas elementares do direito, após a qual se torna altamente questionável falar em “julgamento justo”.

Seria impossível aceitar a ideia de um julgamento justo diante de um ato de agressão contra um país e de um sequestro absolutamente ilegal. E não afirmamos isso a partir de Cuba, que mantém relações de irmandade publicamente reconhecidas com a Revolução Bolivariana e seu atual presidente constitucional. Especialistas internacionais admitem que tanto a agressão quanto o sequestro foram clara, absoluta e incontroversamente ilegais.

O certo é que o fantasma do Cartel dos Sóis foi uma criação enganosa e maligna da maquinaria compulsiva de manipulação do império, com múltiplos interesses. O primeiro deles foi apontar Maduro como um delinquente internacional, não apenas para justificar perante a comunidade internacional — e suas próprias instâncias internas — a agressão à Venezuela e seu sequestro, mas também para estabelecer que o projeto histórico da Revolução Bolivariana havia degenerado em um grupo criminoso que deveria ser cercado, assediado, violentamente agredido e eliminado. Essa narrativa foi expandida sem escrúpulos por toda a maquinaria erosiva do imperialismo.

Ao rotular Maduro como um criminoso internacional que deveria ser “capturado”, tramaram e executaram o plano burlando o Congresso dos Estados Unidos, pois até hoje sustentam com cinismo que não se tratou de uma agressão militar contra a Venezuela, mas de uma ação policial, com apoio do Exército, para “capturar” — nunca dirão sequestrar — o presidente constitucional venezuelano.

Por meio de declarações, manipulações, chantagens e pressões indescritíveis às quais agora submetem a direção revolucionária venezuelana desde as elites e aparatos imperiais, uma vez sequestrados Maduro e sua esposa, buscam a maior humilhação: desmontar a Revolução Bolivariana contando com a rendição e a traição de seu próprio aparato e sistema institucional.

Essa seria sua maior vitória, pois representaria o sequestro do ideal bolivariano de independência, justiça e dignidade continental frente aos postulados malsanamente retocados da Doutrina Monroe no século XXI.

Os fascistas ianques do século XXI atualizam a concepção hitleriana do espaço vital, para a qual já não lhes bastam os territórios da América Latina; por isso, falam em avançar sobre Canadá, Groenlândia e quem sabe quantos outros rincões do mundo, buscando como primeira conquista os territórios mentais.

Por isso, seria quase uma ingenuidade extremamente custosa para este mundo manipulado e enganado pelas apetências imperialistas e neofascistas apostar em um julgamento justo contra Maduro e Cilia. Se apenas isso ousássemos fazer diante da prepotência e arrogância dos novos césares, não apenas cubanos e venezuelanos, mas todos os habitantes da Terra teríamos perdido o juízo.

por RICARDO RONQUILLO BELLO

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