Sequestros da narcodemocracia trumpista: as afinidades eletivas do atual mandatário estadunidense com os narcotraficantes não são novas
Fonte: texto na íntegra do jornal cubano Granma. Tradução própria.
Após o sequestro do legítimo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da deputada Cilia Flores, as autoridades judiciais dos Estados Unidos decidiram revogar a acusação segundo a qual o mandatário liderava o Cartel dos Sóis. Durante mais de uma década, essa imputação foi utilizada para deslegitimar as autoridades chavistas e, há dois meses, converteu-se no aríete propagandístico central para justificar o bloqueio à República Bolivariana, o assassinato de mais de uma centena de tripulantes de embarcações no Caribe, o bombardeio de um país soberano e o sequestro de duas de suas autoridades institucionais.
Enquanto isso, oculto sob um véu comunicacional compacto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, converteu-se no primeiro mandatário a governar para os cartéis de drogas. Durante seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, o magnata assinou 144 indultos e 94 comutações de penas. Uma grande parte dessas indulgências foi concedida a delinquentes condenados por crimes de narcotráfico. O caso mais rumoroso foi o do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado em 8 de março de 2024 a 45 anos de prisão por liderar uma rede de narcotraficantes que comercializou 400 toneladas de cocaína dentro dos Estados Unidos, em associação com o mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán. Nos fundamentos da sentença, o tribunal considerou que Juan Orlando “transformou Honduras — entre 2014 e 2022 — em um narcoestado”. Segundo o jurista Kermit Roosevelt, professor da Universidade da Pensilvânia, as absolvições concedidas por Trump a condenados por narcotráfico são resultado de aportes financeiros realizados por grupos de pressão e/ou familiares dos sentenciados.
O desvergonhado modus operandi utilizado para a libertação de narcotraficantes ficou evidente nas filtrações divulgadas por assessores legislativos, que expuseram os estreitos vínculos de Marco Rubio com o BGR Group, organização de lobby encarregada de garantir a libertação de Juan Orlando Hernández. Essa consultoria se apresenta como voltada a “serviços de assessoramento e lobby personalizado de alto rendimento”. Segundo o Escritório de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA), Juan Orlando Hernández contratou o BGR Group desde 2018 até o término de seu mandato, em 2021, pagando 660 mil dólares anuais para promover sua imagem nos corredores do Capitólio, em Washington. Antes de Juan Orlando Hernández introduzir as 400 toneladas de cocaína através de Miami, o BGR Group era responsável por coordenar e orientar as campanhas eleitorais de Marco Rubio ao Senado, tanto em 2010 quanto em 2016. Segundo vários assessores de senadores democratas, foi Rubio quem colocou os familiares de Juan Orlando em contato com o BGR, o que explica a difusão de relatórios da consultoria nos quais Juan Orlando Hernández era caracterizado como “um aliado-chave na luta contra o crime organizado”.
O vínculo de Rubio com os narcotraficantes é de natureza familiar. Quando era adolescente, o atual Secretário de Estado viveu por períodos na casa de sua irmã mais velha, Bárbara, casada com o cubano Orlando Cicilia, importante animador da gusanera de Miami e integrante dos “cavaleiros da cocaína”. O cunhado de Marco Rubio era subordinado de um dos chefes mafiosos de Miami, Mario Tabraue, que havia participado, em abril de 1961, do fracassado desembarque na Playa Girón. Quando Cicilia foi preso, encontraram vários quilos de cocaína no domicílio onde Rubio pernoitava. Tabraue foi condenado à prisão perpétua, e Cicilia a 25 anos de prisão, mas ambos foram libertados após se tornarem delatores colaboradores. Cicilia conseguiu se reinserir na gusanera graças ao fato de o atual Secretário de Estado lhe ter obtido uma licença como corretor de imóveis, credencial que não é concedida a ex-narcotraficantes — obstáculo que Marco Rubio, já em carreira política, conseguiu contornar. Os negócios dos “cavaleiros da cocaína” foram retratados por Brian De Palma em seu filme Scarface. Tabraue é quem aparece personificado, no filme, como o afável Tony Montana. Bons rapazes.
A condescendência da administração trumpista com os narcotraficantes incluiu o perdão a Ross William Ulbricht, fundador da Silk Road, o maior site de comercialização de drogas ilícitas na internet. O beneficiado havia sido condenado à prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, em 2015. Também foram favorecidos Alice Marie Johnson, encarcerada por distribuição de cocaína, e Ronen Nahmani, condenado desde 2015 pela comercialização de drogas sintéticas na Flórida. Recebeu o mesmo privilégio Weldon Angelos, condenado a 55 anos de prisão por posse de armas de guerra e tráfico de entorpecentes. O mesmo favor foi concedido ao pastor Otis Gordon, que, além de ministrar a comunhão, dedicava-se à distribuição de narcóticos. Roy Wayne McKeever foi outro agraciado pela indulgência presidencial: havia sido preso em 1989 por traficar maconha do México para Oklahoma. O chefe da máfia de Chicago, Larry Hoover, também recebeu o perdão do magnata nova-iorquino. Seu colega, o capo do tráfico de Baltimore, Garnett Gilbert Smith, sorriu junto com seus colaboradores ao receber a notícia do indulto. Sam Topeka, sentenciado a dez anos de prisão por vender 80 quilos de cocaína, foi igualmente beneficiado. A mesma clemência foi concedida a Christopher Anthony Bryant, condenado em 2022 a 12 anos de prisão por posse de armas e distribuição de vários quilos de cocaína, 1.300 doses de heroína, 1.700 comprimidos de metanfetamina e 1.300 de fentanil.
As afinidades eletivas do atual mandatário estadunidense com os narcotraficantes não são novas. Joseph Weichselbaum foi seu sócio em uma empresa de aluguel de helicópteros, utilizada para transportar milionários ao Cassino Trump de Atlantic City, além de investidor em vários de seus empreendimentos imobiliários. Em 1985, Weichselbaum foi acusado de 18 crimes de narcotráfico. Nessa ocasião, ocorreu algo surpreendente: o caso foi transferido de Cincinnati para Ohio para que outra juíza fixasse a sentença. A magistrada designada foi Maryanne Trump Barry, irmã mais velha do atual presidente. Quando a promotoria denunciou a proximidade do acusado com um de seus sócios, Maryanne se declarou impedida, mas entregou o processo a seu colaborador íntimo, o juiz Harold Ackerman. Este último “compadeceu-se” do narcotraficante Weichselbaum, que foi condenado a três anos de prisão — dos quais cumpriu apenas 18 meses —, enquanto seus subordinados receberam penas de 20 anos. Antes do veredicto, Trump havia escrito uma carta ao juiz Ackerman descrevendo Weichselbaum como uma “pessoa escrupulosa, sincera e diligente”, que representava “um motivo de orgulho para a comunidade”.
Em síntese: um empresário com sócios narcotraficantes, que perdoa criminosos narcotraficantes e que utiliza o pretexto do narcoterrorismo para bombardear, executar assassinatos extrajudiciais e sequestrar um presidente.
Quase uma tautologia.
