O cinema brasileiro recoloca a memória em disputa com O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro 2026
O cinema brasileiro fez história na 83ª edição do Globo de Ouro, realizada neste domingo (11). O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, venceu o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, enquanto Wagner Moura foi consagrado Melhor Ator em Filme de Drama — a primeira vez que um ator brasileiro conquista essa categoria. É também a primeira vez que um filme do país leva dois prêmios na mesma edição da premiação.
A conquista reforça a presença do Brasil no circuito internacional e projeta expectativas para o Oscar, marcado para março. Mais do que isso, consolida um momento em que o cinema nacional volta a ocupar espaço central na disputa por narrativas sobre o passado e o presente do país.
Cinema, memória e disputa de narrativas
O novo reconhecimento internacional ocorre após um ano marcante para o cinema brasileiro e para a forma como o país voltou a encarar sua própria história.
Em um contexto de disputas políticas e do reaparecimento de discursos autoritários, filmes nacionais colocaram novamente em cena as dores sensíveis provocadas pela ditadura de 1964 e pelos silêncios construídos ao longo de décadas. Obras como Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, evidenciaram memórias soterradas por projetos políticos que insistiram, por muito tempo, em apagar ou distorcer a história do país.
Após insurgências que ameaçam diretamente a ordem democrática, discutir períodos sensíveis da nossa história recente é também refletir sobre os muitos projetos de sociedade em disputa. É a possibilidade de olhar para o passado a partir do presente, com as perspectivas que hoje temos — e, inevitavelmente, com a pergunta que insiste: que futuro é esse que a gente quer?
Qual o papel desses filmes enquanto dispositivos de memória ao tratar de momentos traumáticos da nossa história? Obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto trazem à tona experiências marcadas pela violência e pela repressão de Estado, recolocando na agenda pública narrativas que se confrontam: as narrativas oficiais e aquelas produzidas por sujeitos violentados pelo próprio Estado. São visões contrapostas que revelam um emaranhado discursivo entre a história contada de cima e as histórias subalternas, construídas a partir de outras perspectivas.
Discutir essas memórias sensíveis é também analisar o lugar que elas ocupam — ou deixam de ocupar — no nosso projeto político. Muitas dessas memórias foram enterradas, apagadas, empurradas para o lixo da história por diferentes interesses. Talvez revisitá-las, especialmente em momentos de crise democrática, seja justamente abrir a possibilidade de reconhecer os horrores e tensionar as condições que permitem sua repetição.
É nesse terreno de disputa que o O Agente Secreto se insere. Ambientado nos anos 1970, em plena ditadura militar, o filme acompanha Marcelo, um professor universitário que deixa São Paulo e retorna a Recife na tentativa de reencontrar o filho caçula, mesmo sob risco constante.
Ao acompanhar esse deslocamento íntimo em um contexto político asfixiante, o filme desloca o foco da história institucional para a experiência concreta de quem teve a vida atravessada pela repressão.
Discursos no palco
Ao receber o prêmio de Melhor Ator, Wagner Moura reforçou a mensagem elaborada no longa:
“O Agente Secreto é um filme sobre memória — ou sobre a falta de memória — e sobre trauma geracional. Acho que, se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem. Então isso é para aqueles que permanecem fiéis aos seus valores em momentos difíceis.”
O discurso foi encerrado em português — um gesto político que reafirma a identidade nacional do filme e marca a presença do Brasil no centro da premiação internacional.
Após a cerimônia, já em entrevistas à imprensa, Moura aprofundou o debate. Ao ser questionado sobre a recepção internacional de filmes brasileiros que abordam o período autoritário, o ator foi direto ao afirmar que a ditadura militar segue como uma ferida aberta no país:
“Temos que continuar fazendo filmes sobre a ditadura. A ditadura ainda é uma cicatriz aberta na vida brasileira (…) Aconteceu há apenas 50 anos. De 2018 a 2022, tivemos um presidente de extrema-direita, fascista, no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura”
Pouco antes, Kleber Mendonça Filho também havia subido ao palco para receber o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Falou diretamente ao Brasil, dedicou a conquista aos jovens cineastas e destacou a importância de continuar fazendo cinema, apesar das dificuldades estruturais que atravessam o setor.
Política cultural e contexto histórico
Em entrevistas concedidas após a cerimônia do Globo de Ouro, o diretor Kleber Mendonça Filho relacionou a trajetória recente do Brasil a uma guinada drástica à extrema-direita ao longo da última década. Ao comentar o papel do cinema em contextos de crise, o cineasta foi direto ao criticar o ex-presidente Jair Bolsonaro, associando o período a instabilidade institucional e ausência de liderança política.
“Há cerca de dez anos, o Brasil sofreu uma guinada bem drástica à direita e esses tempos agora se foram, com o ex-presidente agora preso. Ele foi epicamente irresponsável em não liderar o país”, afirmou. Para Mendonça Filho, a arte e o cinema funcionam como espaços de reflexão sobre essas transformações, permitindo à sociedade elaborar coletivamente traumas, rupturas e lutos históricos que ainda atravessam o presente.
Meses antes da premiação, Kleber Mendonça Filho já havia abordado de forma contundente o impacto do desmonte das políticas culturais durante o governo Bolsonaro. Em entrevistas, o diretor afirmou que o período foi marcado não apenas por cortes orçamentários, mas por um ataque deliberado à própria ideia de cultura no país.
“Não existia respeito pela ideia de cultura no governo anterior. No dia 1º de janeiro, o Ministério da Cultura foi extinto. Não parecia contenção de despesas, mas algum tipo de vingança”, declarou. Segundo ele, o cenário começou a se transformar com a retomada do Ministério da Cultura no início do terceiro governo Lula, criando novamente condições institucionais para o fortalecimento do cinema nacional.
Nesse sentido, O Agente Secreto surge também como resultado direto dessa mudança de contexto político. A reestruturação das políticas públicas de cultura, o apoio à produção audiovisual e o reconhecimento da arte como política de Estado aparecem, na leitura do diretor, como elementos fundamentais para que o filme pudesse ser realizado e alcançar projeção internacional.
Repercussão política
A vitória também teve repercussão institucional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho nas redes sociais, destacando o cinema brasileiro e a cultura como expressões fundamentais da democracia e da identidade nacional.
Um cinema que ocupa o centro da cena
Diferentemente de episódios recentes em que produções brasileiras foram premiadas fora do palco principal, desta vez o cinema nacional esteve no centro da cerimônia. Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho subiram ao palco de cabeça erguida, defendendo o cinema brasileiro, a cultura e o direito de narrar a própria história.
Mais do que os prêmios, a consagração de O Agente Secreto reforça o papel do cinema como espaço de elaboração das memórias traumáticas do país.

Fontes de Informação: G1, Poder 360, BBC News Brasil, Culturadoria, Carta Capital.
