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Cinema, memória e ditadura: Filmes brasileiros reacendem o debate sobre a ditadura militar

“A ditadura é uma ferida aberta no Brasil”, afirmou o ator Wagner Moura em discurso no Globo de Ouro. 

A produção brasileira O Agente Secreto venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa na noite deste domingo (11), enquanto Wagner Moura foi consagrado com a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama por sua atuação no longa.

A conquista reafirma a força recente do cinema nacional no cenário internacional e se soma a outros marcos importantes, como a consagração de Ainda Estou Aqui e a vitória de Fernanda Torres no próprio Globo de Ouro.

Nesse sentido, a força de filmes como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui não reside apenas no reconhecimento internacional que conquistam, mas na forma como reescrevem a memória da ditadura na cena pública. Ao levar essas histórias à mise-en-scène, o cinema brasileiro expõe fraturas e confronta o espectador com aquilo que o país tentou, reiteradas vezes, empurrar para fora do campo visível. 

Quando Wagner Moura afirma que a ditadura segue como uma ferida aberta no Brasil, ele não fala apenas de um passado mal resolvido, mas de um presente atravessado por seus escombros. 

O cinema, nesse contexto, opera como um mecanismo que torna audível aquilo que foi silenciado, evidenciando experiências excluídas das narrativas oficiais e disputando o sentido da história contra projetos que normalizam a violência. Ou seja, a cultura atua como instrumento político ao romper o silêncio institucional e mobilizar a memória coletiva no espaço público.

Ao recolocar essas memórias em circulação, essas obras ampliam a discussão para além do campo cultural. Elas tensionam o pacto do esquecimento, questionam a permanência da impunidade e contribuem para a construção de uma consciência histórica que recusa a repetição. 

Em um país onde golpes se reciclam e a violência política insiste em se reapresentar sob novas formas, o cinema não apenas narra o passado: intervém no presente e disputa o futuro.

Vitória do cinema brasileiro, condenação da ditadura assassina.

A Ditadura Militar, período de 21 anos iniciado com o golpe de 1º de abril de 1964, deixou marcas profundas – especialmente nas famílias dos desaparecidos políticos – mas sua herança mais perversa é a lógica autoritária que nunca foi totalmente extirpada. Onde estão os nossos camaradas mortos e desaparecidos, quem os assassinou e em quais circunstâncias?

Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, as tropas do Gal. Olímpio Mourão Filho marcharam de Minas para o Rio de Janeiro, em insurgência à Constituição e ao Comandante em Chefe das Forças Armadas, o presidente João Goulart. 

A ditadura então inaugurada colocou meio milhão de brasileiros sob suspeição. Para além do fracasso econômico e social, ocultado pela propaganda e pela repressão à imprensa, a perseguição política dilacerou famílias inteiras, institucionalizou a tortura como método de Estado e legou o crime hediondo do desaparecimento forçado.

Os números, ainda incompletos, são aterradores: pelo menos 50 mil presos nos primeiros meses; cerca de 20 mil torturados; mais de 9.540 mortos, incluindo indígenas e camponeses; 210 desaparecidos políticos ainda não localizados. Essa lacuna se repete em cada vala clandestina com ossadas não identificadas, como as 27 encontradas no Paraná (apenas 10 identificadas), e nos 200 inquéritos em andamento que buscam dar resposta a famílias que têm o direito inalienável de sepultar seus mortos.

O ápice do terror foi legalizado com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. O Congresso foi fechado, o habeas corpus para crimes políticos abolido, e uma licença estatal para cassar, sequestrar, torturar e matar foi concedida. A ditadura perdeu qualquer verniz de legalidade e assumiu a feição cruel de um Estado terrorista por dez anos e meio, deixando o Brasil sob um imenso “pau-de-arara”.

Mesmo sob a guilhotina do AI-5, a resistência persistiu. A democracia foi reconquistada, mas a um custo altíssimo e com uma dívida histórica não saldada. As sementes malignas plantadas pela ditadura – a impunidade, o autoritarismo, a violência de Estado como método e o desprezo pelas liberdades – não foram plenamente erradicadas.

Espalhadas pela sociedade e pelas instituições, encontram periodicamente clima político para germinar. Elas renascem no discurso que glorifica torturadores, no clamor por um “novo AI-5”, nas conspirações golpistas e na constante relativização dos horrores do passado. A herança viva da ditadura se reflete na impunidade que ainda impera, na fragilidade das instituições e na persistência de práticas autoritárias, como se viu no golpe de 2016 e na intentona de 8 de janeiro de 2023.

Sem punição aos golpistas de 64, 2016 e 8 de janeiro de 2023, o país não conseguirá consolidar a democracia, tão duramente conquistada e mantida. As Forças Armadas esperam a virada de página após o julgamento da intentona golpista de 8 de janeiro de 2023. 

É necessário salientar que eventual virada de página não significa apagamento ou esquecimento. Pois não se arranca as páginas do livro da História. Lembrar sempre, esquecer, jamais. Quanto à desejosa virada de página pelas forças armadas, não nos apressemos, porque carece do pedido de perdão à nação, pelo seu caráter golpista e pela brutal e criminosa ditadura de 21 anos. O respeito à história do Brasil e à Constituição exige que defendam a nação, e não os interesses de uma minoria entreguista e golpista.

Por isso, mais do que lembrar, é urgente agir. É fundamental implementar, de vez, a Justiça de Transição em seus quatro eixos: Memória (preservar a verdade contra a narrativa falsa), Verdade (esclarecer todos os fatos com base em provas), Justiça (com reparação às vítimas e responsabilização dos agentes do Estado) e, crucialmente, Reformas Institucionais (para extirpar o autoritarismo do sistema, conforme as 29 Recomendações da Comissão Nacional da Verdade). 

Começa, agora, a fase final da justiça de transição reversa. 

O Globo de Ouro da Justiça de Transição virá quando o passado for remoído até não mais ser um fantasma a assombrar o presente e o futuro da democracia brasileira.

Este processo é irreversível, alimentado pela consciência de um povo que não mais aceita ser subjugado. 

A marcha progressista não cede ao retrocesso.

As sementes do novo foram lançadas, o velho está em declínio, é questão de pouco tempo para o novo assumir o seu lugar e o velho viver seus últimos suspiros. As circunstâncias estão favoráveis, contudo, Lula continua hesitando. 

Esse negócio de deixar a área de Direitos Humanos – Ministério, Comissão de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos – à míngua, ou seja, sem recursos ou com recursos precários, denota bem a visão descomprometida deste governo e de governos anteriores, com exceção do governo da Dilma Rousseff, com esses seculares direitos. 

Só teme o passado quem tem contas a ajustar. A impunidade é a chocadeira de novos golpes.

Passados 61 anos, os fantasmas do regime ainda vagam. 

A ferida aberta segue a envenenar o espírito da nação e a corroer os pilares democráticos. A luta continua. Por memória, verdade, justiça e por um país onde “Nunca Mais” seja uma promessa cumprida. 

Ainda estamos aqui e seguiremos até que haja justiça: com a condenação de todos os golpistas, do passado e do presente; o resgate dos mortos insepultos, a punição de seus assassinos e a reparação às famílias.

Viva a democracia, conquistada com sangue, lágrimas e heroísmo. Que seu legado não seja negligenciado.

Por Francisco Celso Calmon.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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