Sinal de alerta, um grito esperançoso.
As novas pesquisas do Datafolha trazem um dado que não pode ser ignorado: uma disputa acirrada entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, em um cenário de segundo turno. Ainda que dentro da margem de erro, há uma diferença mínima entre os dois candidatos. O sinal político é claro e exige mais do que explicações superficiais.
Não se trata apenas da ausência de um projeto mais robusto. Há um problema ainda mais profundo: a falta de mobilização. O governo parece falar para dentro, enquanto a extrema-direita segue falando para fora, organizando base, ocupando espaço, antecipando e disputando narrativas.
Mas o problema não é só do governo. Onde estão os partidos? Onde está a força mobilizadora que historicamente levou o povo às ruas, que formou consciência, que organizou o debate político nos territórios? É preciso ir às ruas e às urnas, fazer barulho e incomodar àqueles que se acham donos e superiores a uma nação soberana.
Falta rua. Falta debate. Falta presença. Falta a criação de núcleos de base pela democracia que informem, dialoguem e politizem o cotidiano. Sem isso, a política vira apenas disputa institucional, e quem ocupa o imaginário popular leva vantagem.
Flávio Bolsonaro não cresce por mérito próprio. Ele avança porque há um vazio sendo ocupado.
A extrema-direita ocupou o espaço da direita, e a esquerda foi para a centro-direita.
Não há projeto de esquerda. Não se trava a luta ideológica contra o sistema capitalista e a superestrutura burguesa. Todo o avanço que obtivemos em 1968 não foi acumulado.
O reformismo e o peleguismo vigoram sem alternativa visível.
O alerta do Datafolha, portanto, é mais amplo: ou há reorganização, mobilização e reconexão com a sociedade real, ou o campo democrático seguirá assistindo a um projeto de Brasil que é feito por poucos e para poucos.
Faltam, sobretudo, bandeiras políticas do governo e dos partidos que atinjam mentes e corações, que animem as ruas. É mister voltar ao horizonte de um projeto grande e uma bússola da utopia. É preciso romper com a inércia política: não adianta criticar a falta de comunicação se não há o que comunicar.
Comunicação, no sentido real, é aquilo que promove emoções, que move a força interior de cada indivíduo, de cada grupo, de cada segmento, de cada classe social, no sentido de uma luta maior, uma luta que não começa na eleição nem termina no resultado dela.
É preciso, enfim, voltar a ter uma estratégia clara e táticas para a realização dessa estratégia.
Mesmo não havendo condições objetivas e subjetivas para uma estratégia revolucionária, é necessário pregar a necessidade da revolução social estrutural para alcançar uma democracia de todos e para todas.
O renascer da utopia floresce nas épocas de crise; se não fizermos, soluções fascistas se apresentam.
O bolsonarismo se coloca, embusteiramente, como antissistema, quando é a essência dele; porém, ao deixarmos a luta ideológica, acabamos parecendo ser o sistema.
A contradição principal na contemporeinidade é entre a democracia e o fascismo!
Caminhemos com a história na mão e a certeza na bússola da utopia.
