A política do inimigo permanente – O Hulk que habita na burguesia
Enquanto parte do empresariado brasileiro começa a demonstrar preocupação com os rumos da economia, da soberania nacional e da instabilidade política permanente, setores do agronegócio mais radicalizados seguem presos a uma lógica ideológica que já não dialoga nem mesmo com os interesses do próprio país. O conflito que emerge entre fazendeiros bolsonaristas e empresários revela algo maior: a política do inimigo permanente.
Durante anos, venderam ao povo trabalhador a ideia de que o verdadeiro inimigo estava no Estado, nos direitos sociais, nas universidades, nos movimentos populares e nos sindicatos. Enquanto isso, os grandes problemas nacionais – concentração de renda, juros abusivos, precarização do trabalho e dependência econômica – permaneceram intactos. Criou-se um inimigo imaginário para esconder os verdadeiros conflitos de classe e os interesses das burguesias econômicas.
Agora, quando empresários começam a sentir os impactos do extremismo político, das crises diplomáticas e da instabilidade econômica produzida pelo bolsonarismo, surgem fissuras dentro da própria burguesia. De um lado, setores que compreendem que sem estabilidade institucional não há crescimento econômico sustentável. Do outro, uma extrema direita ruralista que transformou a ideologia em uma espécie de seita política, mesmo que isso signifique atacar instituições, prejudicar o mercado e aprofundar divisões sociais.
Nesse modelo, qualquer crítica é tratada como traição, qualquer divergência vira inimigo interno e qualquer medida minimamente voltada à redução das desigualdades é rotulada como “ameaça comunista ou bolivariana”. O resultado é uma política baseada no conflito permanente, na desinformação e na fabricação constante de inimigos.
A recente declaração do empresário bilionário e apresentador Luciano Huck ao afirmar que “o Bolsa Família não pode virar projeto de vida”, carrega uma visão histórica profundamente problemática sobre pobreza e assistência social no Brasil.
O discurso parte da lógica de que programas sociais estimulariam acomodação ou dependência, narrativa amplamente difundida por setores da burguesia brasileira ao longo das últimas décadas. Trata-se de uma construção ideológica que busca responsabilizar os pobres por sua própria condição social, enquanto invisibiliza os mecanismos estruturais que perpetuam desigualdades históricas.
Essa narrativa ignora que milhões de brasileiros vivem em condições precárias não por falta de esforço individual, mas pela ausência histórica de acesso igualitário à educação, emprego digno, moradia, saúde e oportunidades econômicas. O problema do Brasil nunca foi o pobre receber auxílio estatal. O verdadeiro problema sempre esteve na extrema concentração de renda e nos privilégios mantidos pelas burguesias econômicas.
Ao afirmar que programas como o Bolsa Família não podem se tornar “projeto de vida”, desloca-se o debate da responsabilidade do Estado e da estrutura econômica para uma suposta falha moral dos mais pobres. Cria-se, assim, a ideia de que a pobreza seria consequência de comportamento individual e não resultado de um sistema historicamente desigual.
Na prática, esse tipo de discurso contribui para enfraquecer políticas públicas fundamentais de proteção social. O Bolsa Família teve reconhecimento internacional justamente por reduzir a fome, diminuir a evasão escolar e movimentar economias locais em regiões extremamente vulneráveis. Para milhões de famílias, o programa representa não acomodação, mas sobrevivência.
Existe ainda uma contradição evidente: enquanto benefícios sociais destinados aos pobres são constantemente questionados, subsídios bilionários, isenções fiscais e privilégios concedidos às grandes empresas raramente recebem o mesmo nível de crítica por parte das burguesias econômicas e da mídia corporativa.
A ideia de que o pobre precisa “merecer” dignidade enquanto os privilégios das classes dominantes são naturalizados faz parte de uma lógica histórica de controle social. Quanto mais vulnerável economicamente permanece a população, maior é sua dificuldade de disputar espaços de poder, acesso à educação crítica e autonomia política.
O povo trabalhador precisa observar esse movimento com atenção. A questão sempre foi sobre poder, controle político e manutenção de privilégios. E quando a burguesia entra em conflito entre si, as contradições aparecem de forma mais nítida.
A burguesia preconceituosa trata a pobreza como falha individual, como se fosse uma escolha. Mas ninguém escolhe passar fome, viver sem acesso à educação de qualidade, morar em condições precárias ou sobreviver sem direitos básicos. A pobreza não nasce da vontade da pessoa; ela é resultado de um sistema que concentra riqueza nas mãos de poucos enquanto empurra milhões para a margem.
A pobreza é útil para esse empresariado retrógrado, pois, de certa forma, mantém os que estão bem empregadas sob o medo de cair de patamar.
Útil também a sua utilização pelas religiões e caridades mercantis, como as que apresentadores e animadores de auditórios dos templos e de TVs fazem.
É vergonhosa a postura dos insensíveis aos sofrimentos alheios. É a mais reles desumanidade.
Combater a pobreza não é atacar os pobres – é enfrentar as desigualdades estruturais que sustentam privilégios históricos. Ser contra a pobreza é defender uma distribuição de renda mais justa, mais humana e verdadeiramente civilizada.
Nem riqueza e nem pobreza dão em árvores; se uns têm muito, outros terão menos. Afinal, o capital é produto da mais-valia do trabalhador, ou seja: a parte não paga pelo produto do seu trabalho.
Choca a insensibilidade da elite, a herança maldita da cultura escravocrata.
Choca também a falta de indignação dos que assistem e participam do Programa desse escroto Hulk; porque se existisse boicotariam esse programa explorador da miséria e ignorância do povo.
Francisco Celso Calmon e Letícia Mendonça
