Brasil desperta, mas ainda precisa se mover

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O Brasil não é mais o gigante adormecido. O país já acordou e começa a enxergar com mais clareza as forças que disputam seus rumos. De um lado, um governo que apresenta resultados e precisa transformar desempenho em apoio social. De outro, a permanência do bolsonarismo como força política capaz de disputar novamente o poder.

“Passamos quatro anos e a realidade é a mesma. Estamos com as mesmas dificuldades. O que fizemos nesses quatro anos? Por que não atingimos um índice melhor agora?”

Os partidos de esquerda o que fizeram neste período?

A dificuldade aparece em transformar quatro anos de governo em uma percepção social suficientemente forte para sustentar mais quatro anos. Por que as ações realizadas não conseguiram produzir uma mudança mais profunda na percepção de parcela expressiva da população?

Às vésperas da eleição, o Datafolha de setembro mostra 42% de avaliação negativa contra 34% positiva. Na Ipsos-Ipec, são 43% de avaliação ruim ou péssima e 33% de ótima ou boa. Na mesma pesquisa, 45% dizem que o governo está pior do que esperavam, enquanto apenas 24% consideram que está melhor.

Quatro anos de governo deveriam produzir uma narrativa de futuro. Mas o debate eleitoral continua preso ao passado. Lula disputa novamente contra o fantasma do bolsonarismo, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta-se como continuidade política do pai. A eleição corre o risco de ser decidida mais pela rejeição ao adversário do que pela capacidade do governo de apresentar aquilo que pretende fazer no próximo ciclo.

A roda da política acaba girando em torno do viés eleitoral e, muitas vezes, de forma despolitizada, presa à disputa imediata, às pesquisas, aos personagens e aos acontecimentos do momento. A discussão sobre um projeto de país acaba ficando em segundo plano ou em plano nenhum.

Os partidos de esquerda e o próprio governo Lula não têm um planejamento estratégico. E isso está relacionado à ausência de um projeto de nação. Se houvesse um projeto de nação, haveria necessariamente um planejamento estratégico macro; dentro dele, metas e planejamento a serem cumpridas e táticas para implementá-las.

Se depois de quatro anos uma parcela importante do eleitorado continua perguntando “o que mudou?”, a resposta não pode ser apenas uma lista de programas, obras ou indicadores. É preciso mostrar qual transformação estrutural foi produzida e como ela chegou à vida cotidiana das pessoas.

O Brasil não é mais o gigante adormecido. O país está acordado e começa a enxergar com mais clareza as forças que disputam seus rumos. De um lado, um governo que apresenta resultados e precisa transformar desempenho em apoio social. De outro, a permanência do bolsonarismo como força política de extrema-direita capaz de disputar novamente o poder.

A questão, portanto, é mobilizar a sociedade em torno do projeto de país que está em disputa. Não há razão para prolongar a angústia eleitoral: é preciso organizar mutirões, conversar com a população e transformar cada contato em oportunidade de disputa política. Mas essa mobilização não pode se resumir ao período eleitoral. Politização exige continuidade, organização e capacidade de apresentar à sociedade um projeto que vá além da próxima eleição.

Por que, depois de quatro anos, a situação eleitoral continua apresentando dificuldades semelhantes às do início do ciclo? Lula aparentemente viajou mais para o exterior do que pelo interior do Brasil. Isso pode ter consequências na percepção interna de seu governo. Afinal, não basta apresentar bons números se esses resultados não chegam à população como percepção concreta de melhoria de vida.

A economia oferece um exemplo dessa distância entre indicadores e percepção. Mesmo com avanços em alguns indicadores, pesquisas recentes registram insatisfação com poder de compra, capacidade de poupança, segurança e custo de vida. O desempenho de um governo mede-se também pela capacidade de fazer com que a população reconheça esses resultados como parte de sua própria realidade. Se os números melhoram, mas a avaliação política não acompanha esse movimento, há uma falha que precisa ser compreendida.

O desafio de Lula é explicar por que, depois de quatro anos, ainda existe uma parcela tão grande do eleitorado que não vê esse resultado como suficiente para justificar a continuidade. Há também uma questão anterior: qual é o planejamento para transformar resultados pontuais em mudanças estruturais e essas mudanças em consciência política?

Esta talvez seja a pergunta que o próprio governo precisa responder ao pedir ao brasileiro mais quatro anos: o que foi feito nesses quatro anos que mudou estruturalmente o país – e por que uma parte tão significativa da sociedade ainda não consegue enxergar essa mudança?

Chama muito atenção as letargias dos partidos de esquerda. Algumas vezes parece que só são partidos no período eleitoral.

No plano internacional, outro alerta se impõe. Enquanto a América do Norte amplia uma ambiência de guerra, a América do Sul tem a oportunidade de seguir outro caminho: o da paz. O Brasil não pode aceitar que sua política externa seja arrastada para uma estratégia belicosa que não necessariamente corresponde aos interesses nacionais ou regionais.

O cinturão de alianças e posições estratégicas que os Estados Unidos vêm construindo ao redor da região precisa ser observado com atenção. O problema está no risco de que uma escalada produza consequências que depois ninguém consiga controlar. Quando se acende um rastilho, o caminho de volta pode deixar de existir.

Internamente, o país enfrenta a disputa política com mobilização e organização. Externamente, precisa preservar sua soberania e não permitir que a América do Sul seja transformada no quintal de Trump.

O país despertou. A questão agora é saber se terá disposição para agir – e, sobretudo, se será capaz de transformar essa disposição em organização, politização, planejamento estratégico, metas e ações concretas para um projeto de nação.

Democracia versus autocracia; civilização x barbárie; soberania x entreguismo; distribuição de renda x concentração; os endinheirados x os famélicos, sentimento pátrio x sabujismo; nossa bandeira e nosso hino x os dos United States off América; tudo isto está em disputa.

Se o resultado eleitoral continua praticamente no mesmo lugar, o que precisa mudar – na comunicação, nas prioridades e, principalmente, no próprio governo? E qual projeto de país será capaz de orientar essas mudanças?

Dará tempo? Talvez.

Sinal vermelho acendeu. Missão diária: cada um arranjar um voto a mais.

Nossas elites continuam sendo as do atraso. 

Continuamos minados por dentro, cercados por fora. Mas somos um povo resiliente.

Francisco Celso Calmon

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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