Fake news, tecnologia e política: uso de IA torna desinformação cada vez mais verossímil
O avanço tecnológico das últimas décadas transformou profundamente a forma como informações circulam na sociedade. Se, por um lado, as redes digitais ampliaram o acesso à comunicação, por outro, criaram as condições ideais para a produção e a disseminação em massa de desinformação, com impactos diretos sobre os processos políticos e democráticos. Em 2025, a pergunta que atravessa o debate público é cada vez mais inquietante: o que ainda é real?
A disseminação de fake news não é um fenômeno novo no Brasil, mas ganhou centralidade política a partir das eleições de 2018. Naquele momento, o uso intensivo de redes como WhatsApp e Facebook foi decisivo para a circulação de conteúdos falsos, distorcidos ou deliberadamente enganosos, muitos deles direcionados a grupos específicos da população. Jair Bolsonaro se elegeu em um contexto marcado por campanhas de desinformação sistemáticas, baseadas em ataques a adversários, teorias conspiratórias e distorções deliberadas de fatos. Investigações posteriores apontaram a existência de estruturas organizadas, popularmente conhecidas como “gabinete do ódio”, responsáveis por coordenar a produção e a disseminação desses conteúdos.
Desde então, as fake news deixaram de ser episódios pontuais para se consolidarem como instrumento recorrente de disputa política, especialmente mobilizado por setores da direita. A estratégia combina exploração emocional, linguagem simples e circulação em ambientes digitais pouco sujeitos à verificação, criando narrativas capazes de moldar percepções e comportamentos políticos.
Fake News e os ataques ao atual governo
Levantamento divulgado pelo G1 aponta que fake news sobre o PIX, o Bolsa Família e as vacinas estão entre as mais recorrentes desde o início do terceiro mandato do presidente Lula. Dados da plataforma oficial Brasil contra Fake indicam que o governo federal já precisou desmentir cerca de 400 notícias falsas desde janeiro de 2023, a maioria relacionada a temas econômicos e programas sociais. As narrativas exploram o medo da taxação, do bloqueio de benefícios e do acesso indevido a dados financeiros, estratégia que ganhou força após mudanças nas regras de monitoramento do PIX, quando a falsa alegação de que o governo passaria a taxar transferências se espalhou rapidamente pelas redes, mesmo após desmentidos oficiais.
Além disso, é recorrente a criação de Fake news sobre supostos confiscos, fechamento de igrejas, manipulação de programas sociais e interferências autoritárias passaram a circular com intensidade desde a posse presidencial. Essas narrativas, frequentemente recicladas, reforçam uma estratégia de desgaste político contínuo, baseada menos em fatos e mais na construção de um clima permanente de desconfiança.
Um exemplo recente
Após acontecimentos políticos recentes, passou a circular em grupos de WhatsApp uma mensagem afirmando que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes estaria processando a jornalista Malu Gaspar. O texto, atribuído falsamente ao ministro, utilizava vocabulário jurídico e estrutura institucional, o que conferiu aparência de veracidade ao conteúdo.
No entanto, não há qualquer comprovação oficial da existência de tal processo, tampouco confirmação da autoria do texto. O caso ilustra um padrão cada vez mais comum: mensagens fabricadas com estética institucional, criadas para parecer documentos legítimos e rapidamente disseminadas antes que qualquer checagem seja realizada.
Tecnologia e inteligência artificial
Se em 2018 a desinformação já se mostrava eficaz, o desenvolvimento tecnológico elevou esse fenômeno a um novo patamar. Ferramentas de automação, algoritmos de recomendação e sistemas de inteligência artificial permitem hoje a produção em larga escala de textos, imagens, áudios e vídeos falsos, muitas vezes com alto grau de verossimilhança.
Esse avanço dificulta a checagem, acelera a circulação e amplia o alcance das fake news, criando um ambiente em que a correção raramente tem o mesmo impacto da mentira inicial. Instituições públicas, tribunais eleitorais e a imprensa tentam responder por meio de campanhas educativas e iniciativas de verificação, mas enfrentam um cenário de assimetria: a mentira circula mais rápido do que a informação confirmada.
Especialistas apontam que a combinação entre tecnologia avançada e intencionalidade política transforma a fake news em uma ferramenta de longo prazo, capaz de corroer a confiança pública, deslegitimar a imprensa e fragilizar as bases do debate democrático.
Esse cenário impõe um desafio direto aos processos democráticos, ao comprometer a qualidade do debate público e influenciar decisões políticas a partir de informações falsas.
