Flávio é o playboy da República!

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A trajetória fantasma de um parlamentar 

O termo inglês playboy nasceu da junção de play – brincar, divertir-se – e boy – garoto, moço. No Brasil, porém, há outro significado: o jovem de família rica que vive cercado de privilégios, distante das dificuldades enfrentadas pela maioria da população.

Flávio Rachadinha Corruptus pode ser chamado de playboy da República. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, construiu sua carreira política dentro de uma estrutura familiar que lhe abriu as portas da vida pública desde muito cedo, sem mérito algum. 

Aos 19 anos, enquanto cursava Direito presencialmente no Rio de Janeiro e fazia estágio voluntário na Defensoria Pública, Flávio ocupava um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília. O cargo constava oficialmente de seus registros, mas a compatibilidade entre as atividades chamou atenção porque as normas da Câmara estabeleciam que funções daquela natureza deveriam ser exercidas em Brasília.

Ou seja: antes mesmo de chegar à Assembleia Legislativa do Rio, onde exerceria quatro mandatos, Flávio já estava inserido na máquina pública por indicação política da estrutura partidária de seu pai, o de funcionário fantasma. 

Em mais de sete anos como senador, Flávio apresentou dezenas de projetos e propostas, mas pouquíssimas de suas iniciativas chegaram efetivamente a virar lei. Apenas duas propostas das quais foi coautor haviam entrado em vigor até 2026 – uma emenda constitucional sobre IPVA de veículos antigos e uma lei de fomento ao microcrédito. Ele também foi relator de uma proposta que acabou transformada em lei, sobre as chamadas “saidinhas” de presos.

É pouco diante do tamanho da ambição política que agora apresenta: chegar à Presidência da República.

As ligações com as milícias

Na Assembleia Legislativa do Rio, Flávio teve Queiroz como assessor e operador apontado no caso das rachadinhas. Adriano da Nóbrega recebeu homenagens de Flávio, enquanto familiares do miliciano trabalharam em seu gabinete. 

Em novembro de 2023, uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro negociou o envio de R$199.999,79 em recursos de emenda parlamentar para o Instituto de Fomento ao Norte e Nordeste (Ifop). 

Mensagens obtidas durante investigação apontam que o repasse foi articulado por Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do senador, com Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, ex-assessor de Domingos Brazão e condenado pela Justiça por seu envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. 

Foi uma tentativa de silenciar aquelas e aqueles que lutam por verdade e justiça, mostrando o preço que pode ser cobrado de quem enfrenta estruturas de poder e não aceita o silêncio como resposta. 

O caso das chamadas “rachadinhas”, envolvendo seu antigo gabinete na Alerj, foi encerrado depois de decisões judiciais anularem provas consideradas ilegais, mesmo que haja diversos indícios de ilegalidades e corrupção. 

A letargia da Justiça favorece à extrema-direita, leva a apatia e descrença à sociedade, e anima a quadrilha bolsonarista. Não havendo um exemplar julgamento e punição, sua história vai virar um manual de como cometer crimes sem ser punido. 

As milícias no Rio de Janeiro nascem justamente da fusão entre agentes públicos, violência armada e controle territorial. Hoje, o domínio de milicianos abrange cerca de 49,4% da superfície urbana total da Região Metropolitana, afetando 4 milhões de moradores.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” 

O mesmo vale para as novas relações que passaram a ser escrutinadas no caso Banco Master, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao universo político bolsonarista.

Flávio Bolsonaro foi desmentido pelas próprias mensagens que vieram a público. Primeiro, afirmou que não tinha relação alguma com Daniel Vorcaro; depois, as conversas reveladas mostraram que havia, sim, contato entre os dois.  

Em seguida, tentou reduzir a relação a uma questão exclusivamente profissional, mas novamente as mensagens expuseram uma proximidade que ia muito além de um contato eventual, mas as mensagens diziam outra coisa: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” 

Flávio também afirmou que os recursos recebidos de Vorcaro eram patrocínio para o filme sobre Jair Bolsonaro e chegou a dizer que apresentaria a prestação de contas desse dinheiro. Até agora, porém, essa prestação de contas não foi apresentada publicamente. 

Enquanto isso, novas mensagens, ligações e informações continuam surgindo, ampliando o escrutínio sobre a relação entre o senador e o banqueiro e levantando questionamentos que precisam ser esclarecidos pelas autoridades competentes, inclusive diante de indícios e suspeitas de possíveis irregularidades financeiras, lavagem de dinheiro e corrupção. 

Voto não é brincadeira. É poder soberano.

E eleição não pode ser aventura.

O eleitor brasileiro precisa olhar para a trajetória dos candidatos, para seus projetos, seus resultados, suas alianças e para os fatos que marcaram suas vidas públicas. Soberania e corrupção são dois itens que balizam a escolha do povo. 

A Presidência da República não é herança familiar. Não é prêmio. Não é extensão de grupo político. É hora de cultivar menos o personalismo e mais o patriotismo coletivo. O eleitor brasileiro precisa olhar para a trajetória dos candidatos, para seus projetos, seus resultados, suas alianças e para os fatos que marcaram suas vidas públicas. 

O patriotismo mensura-se pela disposição de defender os interesses nacionais acima de conveniências pessoais ou alianças internacionais. 

É responsabilidade do Estado. O Brasil precisa decidir seu futuro olhando para o passado, sem esquecer o presente.

Entre o playboy da República e o estadista, o eleitorado responsável não permitirá uma nova aventura como foi com o prisioneiro Jair.

-Francisco Celso Calmon.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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