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GERALDO VANDRÉ 90 ANOS, POR WALNICE

(Fonte: Almanakito da Rosário . O Canal Pororoca reconhece a autoria integral do autor sobre o texto abaixo)

Walnice Nogueira Galvão
homenageia Vandré, menestrel
da canção popular brasileira

O compositor e intérprete paraibano Geraldo Vandré chega aos 90 anos com sua trajetória reavaliada e festejada. Deixa de ser visto apenas como um “cantor de protesto”, rótulo limitante, e tem sua produção lírica colocada em destaque. Em especial sua trilha sonora composta para o clássico “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, filme que tornou-se o grande vencedor da primeira edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1965.


O longa-metragem, protagonizado por Leonardo Villar, baseou-se em conto de João Guimarães Rosa. O escritor gostou muito do resultado artístico da recriação de sua obra. E das canções especialmente compostas por Vandré. O mesmo não acontecera com “Grande Sertão: Veredas”, adaptação do monumental romance roseano, lançada um ano antes (1964) pelos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira.
Recentemente, Vandré ganhou significativo destaque no filme “Homem com H”, de Esmir Filho, cinebiografia de Ney Matogrosso. O cantor mato-grossense fez questão de relembrar os tempos em que ouvia os discos de Vandré e cantava, em rodas de amigos e violão, suas canções. Escolheu, para estar no filme, que se aproximou dos 700 mil espectadores, justo “Réquiem para Matraga”. Ney planeja dedicar um CD às composições líricas de Vandré.


No artigo abaixo, publicado no catálogo do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro, Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da USP, que já dedicara ensaio à obra do artista paraibano (no livro “Gatos de Outros Sacos – Ensaios Críticos”, Editora Brasiliense, 1981) reavalia a obra de Vandré. E presta homenagem ao autor de “Disparada” e do pungente “Das Terras de Benvirá” no ano de seu nonagenário (festejado em setembro).


Abaixo, o texto de Walnice Nogueira Galvão sobre o “menestrel da canção brasileira”, que foi homenageado pela vigésima edição do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa, no dia 10 de dezembro:

O MENESTREL DA CANÇÃO

Por Walnice Nogueira Galvão

“Completa 90 anos aquele que compôs o hino nacional da resistência à ditadura. Proibido em todo o território nacional, “Pra não dizer que não falei de flores” seria entoado nos eventos da oposição, fosse ato público, comício, enterro de vítimas e de líderes etc.
Sabe-se lá que terrores viveu? Notícias de outros perseguidos e exilados contam de pessoas que, sem estrutura para aguentar os demônios, preferiram morrer. Há notícia de famoso líder comunista que tentou o suicídio cortando os pulsos com o único instrumento de que pôde lançar mão, uma tampa de lata de sardinha. Em outros, como o de Frei Tito, a ignomínia dos perseguidores foi exponenciada pelo fato de ele, católico convicto, saber-se condenado pelo suicídio à eterna danação , sem redenção possível. Outros ainda enlouqueceram, tornaramse alcoólatras, converteram-se a cultos messiânicos ou às drogas – enfim, muitas saídas diferentes para o horror que atravessaram, mas todas destrutivas. E muitos padeceram de esterilidade intelectual, deixando de produzir.


Vandré, cria do CPC, formou entre os pioneiros da bossa-nova, embora raramente seja reconhecido. Constituiu sua dupla mais politizada com Carlinhos Lyra . Este até o fim insistiu que sempre foi politizado, desde o começo, quando coordenou com Vinicius de Moraes o show “Pobre menina rica” e foi co-autor do “Subdesenvolvido” (1962) com Chico de Assis, célebre sátira em forma de canção que foi cantada Brasil afora, emblema do CPC e presença em todos os grêmios estudantis do país. Pois Vandré e Carlinhos Lyra fizeram parceria que é responsável pelo menos por duas canções de então: a belíssima “Quem quiser encontrar o amor” (1961) e “Aruanda”(1962). A Vandré devemos algumas das mais lindas melodias da bossa-nova. Mas também há quem prefira “Réquiem para Matraga”, da trilba sonora que Vandré compôs para “A hora e vez de Augusto Matraga”, filme de Roberto Santos.


É de se lamentar que no Brasil não exista a figura do menestrel popular contemporâneo, que teve exemplares magníficos em outros países., como os chansonniers franceses que desde a Revolução mantiveram o bom hábito de fustigar os poderosos. Tais foram, entre tantos outros, Aristide Bruant e George Brassens, que não couberam no mesmo século. Em Portugal, Zeca Afonso fez trabalho quase clandestino durante a ditadura salazarista, que ajudou a derrubar. Não foi à toa que teve sua canção “Grândola Vila Morena” escolhida como senha difundida pelo rádio para deflagrar a Revolução dos Cravos em 1974. Ele, que infelizmente morreria cedo, percorria o país com seu violão, cantando em sindicatos, escolas, igrejas, onde desse enfim, para fazer propaganda da liberdade e da democracia.
Nos Estados Unidos, sobressaem dois deles, identificados à folk music. O primeiro, Woody Guthrie, marchoujunto com os pobres atingidos pela Grande Depressão dos anos 30. Deixou canções inolvidáveis, como “Where haveall the flowers gone”ou “If I had a hammer” . E foi o divulgador do hoje conhecido hino do Movimento pelos Direitos Civis, “We shall overcome”Depois dele surgiria Pete Seeger, participante do mesmo Movimento, dos comícios e atos públicos contra o racismo e contra a Guerra do Vietnã.


Vandré estava a caminho de ocupar seu lugar neste ilustre galeria de menestréis populares, quando a ditadura o ceifou. Somos-lhe gratos por ter existido e brindado seus ouvintes com tão belas canções, as de amor e as de guerra…


Imaginem Vandré no Maracanãzinho, na final do festival da MPB em 1968, respondendo ao anseio popular ao estrear “Prá não dizer…” Quando a canção terminou, ouviu-se e pode-se ouvir até hoje na gravação o brado retumbante dos 12 mil opositores do regime que ali estavam em estado de insurgência e que sancionaram a vitória da canção – que a ditadura proibiria. Mas não conseguiria impedir sua trajetória histórica.


Basta ouvir com atenção a progressão da figura do menestrel que Vandré vai construindo em primeira pessoa desde “Porta-estandarte”, passando por “Réquiem para Matraga”, “Disparada” e “Ventania”, para culminar em “Prá não dizer…” Através de seu canto o menestrel conclama a quem o ouve para mudar o mundo, que está bem precisado”.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP – (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo)

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