Kassio Nunes Marques
Decisões que ampliam o alcance digital do bolsonarismo, interrompem julgamentos desfavoráveis ao candidato do PL e revelações sobre sua relação com o círculo de Daniel Vorcaro colocam o presidente da Justiça Eleitoral no centro de uma crise de confiança.
Kassio Nunes Marques chegou ao Supremo Tribunal Federal em 2020, indicado por Jair Bolsonaro para ocupar a vaga deixada por Celso de Mello. Advogado por 17 anos, foi juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí e desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região antes de chegar à mais alta Corte do país.
Em maio de 2026, assumiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, justamente no ano em que o Brasil escolhe seu próximo presidente. Bolsonaro o colocou no STF, por indicação de seu filho, Flávio Bolsonaro. Agora, o ministro está à frente da instituição que deve garantir a igualdade de condições na disputa que pode levar Flávio Bolsonaro, filho de seu padrinho político, à Presidência da República..
E é aí que começam os problemas.
Em 9 de outubro, Nunes Marques interrompeu três julgamentos virtuais do TSE quando já havia cinco votos favoráveis à retirada de publicações contra Lula, diante de apenas um voto contrário. Os conteúdos associavam o presidente a facções criminosas ou exploravam declarações suas fora de contexto. Entre os materiais questionados estavam publicações de Flávio Bolsonaro e do deputado Nikolas Ferreira. Com o pedido de destaque do presidente do tribunal, os julgamentos foram suspensos e as decisões individuais que permitiam a permanência das publicações continuaram produzindo efeitos até nova análise.
Na mesma semana, veio outra decisão com efeito direto sobre a disputa digital. Nunes Marques encaminhou às plataformas uma interpretação que libera a recomendação algorítmica de perfis de políticos eleitos no primeiro turno. Na prática, nomes como Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro podem voltar a ter suas publicações recomendadas a usuários que não os seguem, ampliando gratuitamente o alcance da campanha de Flávio. A resolução eleitoral havia estabelecido restrições à recomendação de perfis e conteúdos de candidatos durante o período eleitoral.
Quem ganha com isso? A candidatura que dispõe de uma rede de aliados populares, com milhões de seguidores, cujos conteúdos podem voltar a ser impulsionados pelos algoritmos. Quem perde? Os adversários, que disputam atenção em condições diferentes. Não é necessário provar que o ministro agiu com intenção partidária para reconhecer o efeito concreto de sua interpretação. Por que flexibilizar as regras de modo a ampliar a capacidade de mobilização digital de uma candidatura, quando a obrigação da Justiça Eleitoral é impedir que o peso das estruturas de poder desequilibre a disputa?
Mas os questionamentos sobre Kassio Nunes Marques já não se restringem às decisões eleitorais. Em 15 de outubro, a revista piauí publicou uma reportagem baseada em 125 mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Os diálogos reconstituem uma festa privada realizada em 28 de fevereiro de 2025, no tríplex de Vorcaro, em São Paulo, cuja organização teria envolvido funcionários, um chef de cozinha e uma intermediária responsável por levar garotas de programa ao local.
Segundo a reportagem, o mordomo informou a Vorcaro que havia emprestado um quarto ao “ministro com 5 menina”. Mais tarde, relatou que o convidado estava sem pressa para ir embora. Em mensagens posteriores, uma intermediária cobrou R$ 10 mil e afirmou que uma das mulheres havia ficado com alguém identificado como “Kassio”. A piauí relaciona os registros ao ministro do STF e presidente do TSE.
A mesma reportagem relata que, durante o período das operações financeiras descritas, o Banco Master transferiu R$6,6 milhões em 14 operações para a Consult Inteligência Tributária. Desse montante, R$282 mil teriam sido repassados diretamente a Kevin Marques, filho do ministro. A piauí também afirma que mensagens indicam o pagamento de R$500 mil mensais ao filho por Vorcaro. São informações de extrema gravidade, que exigem esclarecimentos documentais e apuração independente. A existência dos repasses, por si só, não demonstra que o ministro tenha recebido dinheiro nem comprova que suas decisões foram compradas.
Mas a combinação de interesses financeiros, relações pessoais relatadas e decisões judiciais favoráveis a interesses ligados ao banqueiro torna insuficiente qualquer tentativa de tratar o caso como uma questão privada sem relevância institucional.
O ministro indicado por Bolsonaro tem hoje a responsabilidade de conduzir a Justiça Eleitoral em uma disputa que envolve o filho do ex-presidente. Por isso, qualquer decisão capaz de favorecer uma candidatura deve ser examinada com rigor redobrado. Se a interpretação das regras beneficia aliados de Flávio, é preciso justificar por que ela é juridicamente correta e como assegura igualdade de condições. Se as revelações sobre Vorcaro levantam dúvidas sobre relações privadas e interesses financeiros, é necessário que os fatos sejam apurados sem proteção corporativa.
Na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, suspendeu o canal “Exército do Lula”, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. A decisão foi contestada pelo corregedor eleitoral e o canal acabou liberado após a regularização. Agora, a discussão sobre uma proposta para restringir canais políticos no WhatsApp nas horas próximas ao segundo turno expõe outra questão: até onde pode ir a Justiça Eleitoral sem comprometer a liberdade de expressão e o equilíbrio da disputa? A minuta de André Mendonça não foi aprovada, mas a tentativa de impor restrições tão perto da votação merece ser examinada.
Não é um episódio isolado. Enquanto decisões do TSE interferem diretamente na circulação de conteúdo político, o nome de Kassio também aparece no rastro de relações investigadas no caso Daniel Vorcaro, do Banco Master. O episódio “República dos Laranjas”, do Revelando, aborda conexões que passam pelo advogado Willer Tomaz, por Flávio Bolsonaro e por transações envolvendo o escritório de Kevin Marques, filho do ministro. Segundo reportagens sobre a investigação, o escritório recebeu cerca de R$281,6 mil de uma consultoria que teria recebido R$6,6 milhões do Banco Master.
O presidente do TSE protagoniza controvérsias sobre restrições à comunicação política e, ao mesmo tempo, seu nome surge em investigações sobre conexões políticas e financeiras, não basta invocar a autoridade do cargo. É preciso prestar contas.
O TSE não pertence ao presidente da vez, nem a Lula, nem a Flávio Bolsonaro. Pertence ao Estado democrático de direito. E uma eleição só pode ser considerada justa quando os candidatos disputam sob regras comuns, quando decisões relevantes são fundamentadas e quando a autoridade responsável por as aplicar não deixa dúvidas sobre sua independência.
A Justiça Eleitoral não pode se transformar em instrumento de vantagem para o bolsonarismo, assim como o Supremo não pode tratar suspeitas graves envolvendo seus integrantes como um assunto a ser resolvido entre pares. O país tem o direito de exigir respostas. E as instituições têm o dever de fornecê-las.
A Justiça Eleitoral não pode ser instrumento de conveniência de campanha, assim como a proximidade com o poder não pode servir de escudo contra perguntas incômodas. Em uma disputa que envolve o futuro político do país, a sociedade tem o direito de saber quem se articula com quem, quais interesses estão em jogo e quais critérios orientam as decisões. Sem transparência, a confiança nas instituições vira uma exigência dirigida aos outros – nunca aos que estão no comando.
Por tudo, corre lista solicitando o impeachment do ministro Kássio Nunes Marques.
Francisco Celso Calmon.
