Perfis estrangeiros usam posts pagos para divulgar suposto favoritismo de Flávio Bolsonaro
Publicações patrocinadas citam a Polymarket para sustentar narrativa sobre a disputa presidencial; especialistas apontam possíveis conflitos com a legislação eleitoral brasileira
Contas registradas fora do Brasil no X, antigo Twitter, vêm promovendo por meio de publicações identificadas como “parceria paga” conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. As postagens utilizam dados da plataforma de apostas Polymarket para apresentar o senador como suposto favorito na disputa eleitoral. A informação foi revelada pelo Metrópoles.
Segundo a reportagem, parte dos perfis responsáveis pelas publicações está identificada como sediada nos Estados Unidos. Alguns possuem centenas de milhares de seguidores e são acompanhados por figuras como Elon Musk e Eduardo Bolsonaro. O próprio Eduardo republicou algumas das publicações patrocinadas que divulgavam os dados da Polymarket.
As mensagens afirmam que Flávio Bolsonaro seria capaz de “salvar o Brasil” e derrotar o “esquerdismo” na América Latina. Em outras publicações compartilhadas por apoiadores, aparece a expressão “vai ser no primeiro turno”, reforçando a narrativa de que o senador poderia vencer a eleição sem necessidade de segundo turno. A reportagem ressalta, contudo, que a repetição das mensagens não permite concluir, por si só, que exista uma ação coordenada entre os perfis.
Publicidade eleitoral sob questionamento
A legislação eleitoral brasileira estabelece restrições específicas para a propaganda paga na internet. A Lei nº 9.504/1997 determina que o impulsionamento eleitoral deve ser contratado diretamente por partidos, coligações, candidatos ou seus representantes, com identificação inequívoca do responsável. A legislação também proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, recursos provenientes de entidades ou governos estrangeiros.
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontaram que a origem dos recursos utilizados para financiar as publicações precisaria ser esclarecida para determinar eventual irregularidade. A própria plataforma X informa que os conteúdos são patrocinados, mas não disponibiliza publicamente, segundo a reportagem, a identidade de quem financiou as parcerias.
Polymarket transforma apostas em narrativa política
A estratégia também envolve a utilização dos números da Polymarket como se fossem um indicador da corrida eleitoral. Segundo levantamento citado pelo Metrópoles, foram identificadas 13 publicações patrocinadas pela plataforma entre março e maio de 2026; 11 apresentavam narrativas favoráveis a políticos de direita ou críticas a lideranças de esquerda.
No caso brasileiro, uma dessas publicações afirmou que Flávio havia ultrapassado Lula no mercado de previsões da Polymarket e apresentou a movimentação das apostas como evidência de favoritismo eleitoral. Estratégia semelhante teria sido utilizada em conteúdos relacionados às disputas políticas na Colômbia e no Peru.
A reportagem também destaca que Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, é investidor da Polymarket por meio da 1789 Capital e integra o conselho consultivo da empresa desde 2025. Em abril de 2026, o governo brasileiro bloqueou o acesso à Polymarket e a outros sites de mercados de previsão, alegando ausência de autorização dos órgãos competentes para oferecer contratos ou apostas relacionados a política e eleições no país.
O episódio coloca em discussão não apenas o uso de plataformas de apostas como instrumento de comunicação política, mas também a origem dos recursos utilizados para promover conteúdos eleitorais no Brasil e a transparência sobre seus financiadores.
