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2026 marca uma Copa do Mundo que lembra Roque Santeiro: a maior Copa do Mundo da história que foi sem nunca ter sido.

Ampliar o número de seleções e estrear esse novo formato tendo um continente inteiro como sede foi a fórmula perfeita para vender a hipérbole da “maior Copa do Mundo da história”. Canadá, México e Estados Unidos receberam um torneio que prometia simbolizar a união dos povos pelo esporte, algo que historicamente sempre esteve associado a grandes eventos como Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e Jogos Pan-Americanos. Mas, na prática, essa promessa nunca se concretizou.

Especialmente por causa dos Estados Unidos, o país que insiste em vender ao mundo o discurso da liberdade enquanto influencia o cenário internacional por meio de guerras, disputas geopolíticas, monopólios econômicos e diferentes formas de violência. Não existe neutralidade quando um megaevento dessa dimensão é atravessado por interesses políticos e econômicos tão evidentes.

Ainda assim, tudo isso foi naturalizado, e agora teremos que assistir aos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 seguindo a mesma lógica. Felizmente, México e Canadá conseguiram imprimir outra relação com a competição: o México, sustentado por uma tradição futebolística construída ao longo de décadas, e o Canadá, buscando consolidar o futebol masculino sem apagar sua histórica força no futebol feminino.

Talvez seja justamente por isso que tanta gente repita que “é só futebol”. Porque reduzir o futebol a um simples entretenimento é uma forma conveniente de esvaziar seu significado político, social e cultural. É mais fácil tratar a Copa como um produto do que reconhecer que ela também mobiliza identidades, desperta pertencimentos e revela contradições profundas das sociedades que a disputam e a organizam.

A Copa do Mundo não é um evento que apenas se assiste; ela é vivida. Esse discurso de que “é só futebol” faz parte de uma tentativa constante de negar uma das maiores expressões da identidade construída pelo povo brasileiro, goste a pessoa de futebol ou não. O futebol sempre foi muito mais do que noventa minutos. Ele fala sobre memória, classe, território, cultura popular e sobre como um país enxerga a si mesmo.

Por isso, a eliminação do Brasil para a Noruega representa um dos piores cenários possíveis para a Seleção Brasileira. É um verdadeiro desastre esportivo que marca gerações: a geração que viu o Brasil ser campeão diversas vezes; a geração que carrega para sempre o trauma do 7 a 1; e a geração que está vivendo suas primeiras Copas do Mundo.

Também não aceito a tentativa de resumir esse fracasso à figura de um jogador ou de um treinador, como a imprensa fez com Roberto Carlos em 2006, o Felipe Melo em 2010, o Felipão em 2014 e etc. A derrota foi coletiva.

Ela é resultado de anos de decisões equivocadas, de uma gestão incapaz de compreender o tamanho simbólico da Seleção Brasileira e da transformação da camisa mais vitoriosa do futebol mundial em apenas mais um produto de mercado. Todos têm responsabilidade naquele que pode ser considerado o pior ciclo da Seleção desde o pentacampeonato e, possivelmente, uma das campanhas mais decepcionantes da história do Brasil em Copas do Mundo.

2026 consolida o pior ciclo da Seleção Brasileira desde a conquista do pentacampeonato, em 2002. Todas as campanhas anteriores, por mais frustrantes que tenham sido, ainda carregavam algum projeto esportivo, alguma expectativa ou, ao menos, uma identidade minimamente definida.

Em 2006, havia uma seleção repleta de craques, mas que sequer conquistou uma Copa América e passou anos mascarando seus problemas ao enfrentar adversários tecnicamente frágeis em amistosos, como a simbólica seleção de Lucerna. Em 2010, a equipe foi conduzida em um ambiente de confronto permanente com a imprensa, marcado pelo autoritarismo e pela frase “Tá em crise? Chama o Chile”, um retrato de um ciclo que caminhava para um fracasso anunciado.

Em 2014, a esperança renasceu com o título da Copa das Confederações de 2013 e com o sonho de conquistar o Mundial em casa. Já em 2018 e 2022, apesar das eliminações dolorosas, existiam sinais concretos que alimentavam a confiança: campanhas dominantes nas Eliminatórias, o inédito ouro olímpico, títulos e boas atuações contra a Argentina, além da conquista da Copa América.

Para 2026, não existiu sequer um projeto. O que vimos foi o completo desmonte da Seleção Brasileira: quatro treinadores em pouco mais de um ano, uma gestão incapaz de desenvolver e aproveitar a base, uma eliminação precoce na Copa América e uma sucessão de decisões improvisadas que escancararam a ausência de planejamento.

Nesse cenário de terra arrasada, Carlo Ancelotti foi apresentado como um “salvador da pátria”, tal qual Sassá Mutema, como se um único treinador pudesse resolver problemas produzidos por anos de incompetência administrativa. A crise da Seleção não nasceu em um jogo nem terminou com uma eliminação. Ela é consequência direta de uma estrutura que abandonou qualquer projeto esportivo em favor do improviso, do marketing e dos interesses de quem transformou a camisa mais pesada do futebol mundial em um negócio.

Seguimos tentando viver a Copa, mesmo com esse gosto amargo. Mas isso nunca será apenas futebol. Enquanto alguns insistem em vender o esporte como mercadoria e outros tentam convencer que ele não passa de um jogo, o povo continua vivendo a Copa como parte da sua própria história.

E talvez esteja na hora de abandonar também o discurso conformista de que “só o Brasil é penta”. O Brasil é penta, mas isso, por si só, já não basta. O Brasil é penta, mas não aguenta mais viver apenas do passado.

Por Richard Matan. 

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Richard Matan

Professor de sociologia do pré-vestibular da UERJ e do CEFET, estudante de Licenciatura em Ciências Sociais pela UNIRIO e formado no Ensino Médio Integrado ao Técnico em Telecomunicações do CEFET.

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