O imperialismo de Trump expõe contradições, divide a extrema direita europeia e tensiona o discurso da soberania
Fonte: Texto reproduzido do jornal francês La Monde. Tradução própria.
Embora tivesse sido anunciada para a habitual coletiva de imprensa dos Patriotas pela Europa, organizada na terça-feira, 20 de janeiro, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, a vice-presidente do grupo e eurodeputada húngara Kinga Gál acabou não comparecendo ao lado de Jordan Bardella. Essa integrante do Fidesz, partido do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, assim não precisou ouvir o discurso inflamado do eurodeputado francês, líder do Reagrupamento Nacional e presidente do grupo Patriotas pela Europa, que condenou firmemente a “lógica de vassalização” imposta por Donald Trump sobre a Groenlândia e o risco de um “grave precedente” que representaria uma anexação americana do território autônomo dinamarquês. Bardella acrescentou que “a União Europeia [UE] não tem o direito de se calar”.
Em contrapartida, seus aliados de grupo, sim. Em Estrasburgo, o Fidesz não disse uma palavra sobre a Groenlândia durante a sessão que se iniciou na segunda-feira. Os húngaros ao menos ouviram o discurso de seu aliado do Partido do Povo Dinamarquês, o eurodeputado Anders Vistisen, que chegou a pedir em pleno hemiciclo a Donald Trump que “fosse se foder”? Difícil dizer, tamanha é a linha de discrição adotada por Viktor Orbán sobre o tema. Apesar das ameaças do presidente americano em relação à Groenlândia, o húngaro espera que ele vá visitá-lo para apoiá-lo antes das eleições legislativas previstas para 12 de abril. O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó, afastou na segunda-feira as questões sobre o dossiê da Groenlândia, afirmando que ele “não é da competência da UE”.
O imperialismo de Donald Trump gera um mal-estar crescente e divisões cada vez mais visíveis entre os nacionalistas europeus, até então bastante unidos em sua admiração pelo presidente americano. Instalado em Budapeste, o influenciador conservador americano Rod Dreher, próximo do vice-presidente J. D. Vance, publicou na quarta-feira um texto que chamou atenção, no qual critica o método da Casa Branca em relação à Groenlândia. “Um certo número de conservadores europeus, que geralmente apoiam Trump, são hoje obrigados a reconsiderar sua posição, porque são patriotas”, reconheceu, estimando que, com suas ameaças, “Trump complica consideravelmente a tarefa” de seus aliados no Velho Continente, mesmo que, por enquanto, essa tendência não seja perceptível nas pesquisas.
“Privilegiamos o diálogo”
Enquanto uma reunião do Conselho Europeu deveria ser organizada na quinta-feira, em Bruxelas, para definir uma reação às ameaças tarifárias formuladas por Washington contra oito países europeus que enviaram soldados à Groenlândia para demonstrar solidariedade à Dinamarca — ameaças às quais Donald Trump disse renunciar na noite de quarta-feira, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) —, a posição de Viktor Orbán, habituado a ameaças de veto, será muito observada, assim como a da Eslováquia e da República Tcheca.
A unanimidade certamente não é necessária para acionar o instrumento de coerção europeu defendido nos últimos dias pela França, mas o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, que esteve em visita a Donald Trump no sábado, em Mar-a-Lago, em Palm Beach (Flórida), e seu homólogo tcheco, Andrej Babiš, até agora não manifestaram apoio claro a Copenhague. “Privilegiamos o diálogo às declarações”, justificou-se Babiš na segunda-feira, em Praga, assegurando querer “privilegiar um acordo no âmbito da OTAN”.
A posição que será expressa pela presidente do Conselho italiano, Giorgia Meloni, também é muito aguardada. Diante de Donald Trump, sua linha até agora consistia em incitar seus parceiros do continente a não fazer nada que pudesse contrariar Washington e em atribuir à Europa a responsabilidade pela posição americana. Sempre à procura de uma posição de equilíbrio, a presidente do Conselho qualificou de “erro” a ameaça americana de novas tarifas, sem, contudo, expressar a vontade de se alinhar a uma retaliação europeia no front comercial.
Publicamente, aliás, a aversão a qualquer forma de ação que possa ser percebida como hostil pela parte americana permanece. Na quarta-feira, durante uma entrevista televisiva, Giorgia Meloni afirmou que a crise em curso poderia ter sido causada por uma “ausência de comunicação que precisa ser restabelecida”, estimando que o envio de soldados europeus à Groenlândia — do qual a Itália não participa — poderia ter sido compreendido como um “ataque contra os americanos”. Ela indicou ter telefonado para Donald Trump para dissipar o “mal-entendido” e se congratulou com a renúncia declarada deste último ao uso da opção militar, sendo a linha de Roma sempre a de recusar considerar esse risco como real.
“Princípio de soberania”
No Reino Unido, que não faz mais parte da UE, mas onde a extrema direita lidera as pesquisas, poucos à direita do espectro político ousam aplaudir as reivindicações territoriais de Donald Trump. Depois de qualificar a questão da Groenlândia como “secundária” em 11 de janeiro, Kemi Badenoch, líder dos conservadores, alinhou-se ao primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer e considera que “a soberania da Groenlândia só pode ser decidida pelos groenlandeses”. E se Nigel Farage, líder do partido de extrema direita Reform UK, afirmou em Davos, na quarta-feira, que “o mundo seria mais seguro” se os Estados Unidos controlassem a calota de gelo ártica, acrescentou, contudo, que “acredita no princípio da soberania”.
À semelhança da Hungria, o trumpismo permanece, em contrapartida, tão em voga quanto antes entre as extremas direitas da Europa Central. Na Polônia, o presidente nacionalista Karol Nawrocki, eleito em 2025 após receber o apoio do presidente americano, não formulou nenhuma crítica. “Devemos levar em conta o que Donald Trump diz como responsável por nossa segurança e pela do mundo inteiro”, afirmou ele, ao contrário, na quarta-feira, no Fórum Econômico de Davos. Em 15 de janeiro, havia dito que “a questão da Groenlândia deveria, antes de tudo, continuar sendo um assunto entre a primeira-ministra dinamarquesa [Mette Frederiksen] e o presidente Donald Trump”, ao contrário de seu primeiro-ministro de coabitação, Donald Tusk (Coalizão Cívica, centro-direita), que havia destacado que uma potencial intervenção americana na Groenlândia seria um “desastre político”.
Na Romênia, a extrema direita, que não está no poder, mas é creditada com 40% das intenções de voto, continua também a exibir seu trumpismo. Na quarta-feira, o líder do partido Aliança para a Unidade dos Romenos, George Simion, chegou inclusive a se filmar em Washington com parlamentares republicanos cortando… um bolo em forma da Groenlândia coberto por uma bandeira americana. A imagem provocou indignação na Romênia e mostra que nem toda a extrema direita europeia ouviu o alerta de Jordan Bardella, segundo o qual a anexação da Groenlândia “criaria um precedente grave que poderia, amanhã, dizer respeito a outros territórios europeus”.
por jean-baptiste chastand,
cécile ducourtieux,
jakub iwaniuk,
allan kaval.
