ArtigosAssertivasEditorialEngenharia e Desenvolvimento NacionalLeitura

Engenharia, desenvolvimento e soberania.

Nos dias correntes, entre os temas que mais chamam a atenção do mundo, está a resistência do Irã às agressões perpetradas pelos Estados Unidos e por Israel, enfrentando (pelo menos no atual estágio da guerra) de igual para igual a maior potência militar do planeta e seu principal satélite no Oriente Médio.

Mergulhando mais fundo na forma como o Irã se defende e ataca, além da importância estratégica do Estreito de Ormuz, chama a atenção a existência de detalhes do seu aparato militar, como, por exemplo, o drone Shared-136, um artefato que pesa cerca de 200 quilos e consegue levar ogivas de até 40 quilos a distâncias máximas de 1.500 quilômetros com velocidade próxima de 185 km/h. Em termos tecnológicos, diriam alguns, o Shared-136 não é grande coisa. De fato, especialmente aqueles que conhecem mísseis como o Tomahawk (que alcançam distâncias de até 2.500 quilômetros com velocidade média de 913 km/h com ogivas de até 450 quilos) poderiam perguntar sobre a relevância do Shared. Acontece que, ao contrário do Tomahawk cujo custo unitário ultrapassa US$ 1,5 milhão, a produção de um Shared requer a aplicação de apenas US$ 20 mil por unidade. Nesta perspectiva, o seu baixíssimo custo de produção faz a diferença entre o Shared e os demais mísseis – uma diferença de muito impacto no campo real. Para abater um Shared, por exemplo, o Domo de Ferro dispara vários (cerca de dez) mísseis Tamir, que são comprados por cerca de US$ 80 mil a unidade, em batalhas muito dispendiosas à Israel.

Na realidade, tendo em vista o seu baixo custo, o Shared é usado em ataques maciços para saturar as defesas inimigas, obrigando-as a usar um arsenal muito mais dispendioso e, assim, abrir caminho para os ataques iranianos com mísseis balísticos mais sofisticados e caros (Ghadr, Emad, Sejjil, Khorramshahr e Fattah) e, se for o caso, mísseis de cruzeiro (Soumar. Paveh, Ya-Ali, Hoveyzeh e Noor).

Naturalmente, a extraordinária capacidade militar do Irã tem explicações fincadas na formação cultural do seu povo. De fato, cumprindo um processo iniciado com o surgimento da Pérsia há 2.600 anos, o Irã cultiva a Educação como prioridade (atualmente, o país investe 20% dos gastos governamentais, cerca de 5% do PIB, em Educação) e exercita uma dinâmica social baseada em fatores que tem o desenvolvimento científico e tecnológico como importante fundamento, explicando a existência de uma poderosa base militar, a qual, diga-se de passagem, tem amparo na cooperação internacional e recorre com frequência à engenharia reversa.

Poucas pessoas sabem, mas, depois da China, o Irã é o país que mais forma engenheiros – um dado que, levando em consideração as populações nacionais envolvidas, proporcionalmente o Irã o país mais empenhado na formação de engenheiros. Esta é a principal razão de o Irã ter alcançado a condição de potência, inclusive na área militar.

Com efeito, a condição de ter e formar muitos engenheiros combinada com as prioridades fixadas pelo governo e com o suporte dado pelos investimentos estatais, garante o sucesso dos programas de desenvolvimento, inclusive, se for o caso, na esfera militar.

Tomando o caso do Irã como exemplo objetivo, se um país almeja alcançar patamares superiores de desenvolvimento e de soberania, além de garantir os necessários suportes estatais, precisa investir na educação do seu povo, no desenvolvimento científico e tecnológico e na formação de engenheiros. Um campo no qual o Brasil ainda tem um longo caminho por percorrer.

Por Alexandre Santos.

Alexandre é engenheiro civil, ex-presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco, membro da Academia Pernambucana de Engenharia e coordenador-geral da série ‘Engenharia & Desenvolvimento’.

Assine nossa newsletter para receber notícias diárias!

Alexandre Santos

Alexandre Santos – Engenheiro Civil, ex presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco e Coordenador-geral da série ‘Engenharia & Desenvolvimento’ do Canal Arte Agora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *