A juventude brasileira e a disputa pelo sentido da política
Existe uma mudança estrutural em curso na forma como jovens brasileiros se informam – e ela não é neutra.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023, a internet já é o principal meio de acesso à informação para adolescentes no país, com forte presença de redes sociais no consumo cotidiano. Esse dado, por si só, não é problema. A questão está no tipo de conteúdo que circula e na forma como ele é assimilado.
Estudos recentes sobre desinformação política no Brasil indicam que conteúdos com alto apelo emocional e baixa densidade informativa tendem a se espalhar com mais rapidez e alcance, especialmente em ambientes digitais. Isso impacta diretamente a formação de opinião, muitas vezes antes que haja qualquer compreensão mais estruturada sobre os temas debatidos.
Nesse cenário, o papel do Estado deixa de ser acessório e passa a ser estratégico.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mantém iniciativas voltadas à educação em direitos humanos, incluindo ações ligadas à memória histórica e à cidadania. Já a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República atua na comunicação institucional do governo federal.
Essas estruturas existem, mas operam de forma fragmentada. Não há, até o momento, uma política nacional contínua e estruturada voltada à formação histórica e política da juventude em escala compatível com o tamanho do desafio.
E esse ponto não é abstrato. Ele aparece nos próprios indicadores educacionais.
Dados do IBGE e avaliações como o SAEB mostram dificuldades persistentes na aprendizagem de competências ligadas à interpretação, leitura crítica e compreensão de contextos – habilidades fundamentais para a formação política.
Ao mesmo tempo, o debate público segue marcado por simplificações.
A política é frequentemente apresentada como um embate binário, reduzido a polos opostos, o que obscurece a complexidade real das disputas institucionais e sociais no país. Essa simplificação não apenas empobrece o debate, ela também facilita a circulação de desinformação e dificulta a construção de pensamento crítico.
Ainda assim, esse espaço não está vazio.
Na ausência de uma estratégia nacional estruturada, surgem iniciativas e lideranças que tentam estabelecer pontes com a juventude, especialmente por meio da linguagem e da presença digital. É o caso da vereadora Dani Balbi, cuja atuação inclui pautas de educação, cultura e acesso ao debate político.
Esse movimento revela uma questão central: o problema não é falta de interesse da juventude, mas as condições em que esse interesse é formado.
Quando o acesso à política se dá majoritariamente por conteúdos fragmentados, sem mediação crítica consistente, o risco não é apenas a desinformação – é a formação de percepções superficiais que dificultam a elaboração de projetos coletivos.
E isso nos leva a um ponto mais profundo.
Em um país que viveu uma ditadura recente e ainda disputa publicamente os sentidos da sua própria história, a formação política não pode ser tratada como efeito colateral da educação formal ou da comunicação institucional. Ela é, necessariamente, parte de um projeto democrático.
Sem memória, não há parâmetro para compreender o presente.
Sem compreensão, não há capacidade de formular futuro.
Diante disso, a questão que se impõe não é apenas como os jovens consomem política – mas quem está estruturando esse processo.
Existe, hoje, um projeto claro de formação política da juventude nos programas de governo?
E, se não existe, quem ocupa esse espaço no lugar do Estado?
Leticia Vieira de Mendonça
Cientista social, professora e editora do Canal Pororoca.
