DestaquesEditorialLeituraPolitica

Espírito Santo: tradição conservadora e o horizonte de um novo ciclo progressista

O Espírito Santo costuma ser identificado como um dos estados mais conservadores do Brasil. Profundamente marcada pela colonização europeia, especialmente por imigrantes italianos, alemães e pomeranos que se estabeleceram no território capixaba entre os séculos XIX e XX. A forte influência religiosa, a valorização da propriedade privada, o peso das tradições familiares e a própria estrutura econômica baseada por décadas em atividades rurais contribuíram para consolidar uma cultura política conservadora.

Ao longo da história republicana, o Espírito Santo acompanhou uma tendência nacional em que forças políticas de centro e de direita ocuparam a maior parte dos espaços de poder. No entanto, diferentemente do que muitos imaginam, o estado também foi palco de experiências políticas progressistas pioneiras que desafiaram essa hegemonia.

Um dos marcos dessa trajetória foi a eleição de Max Mauro para o governo estadual em 1986. Oriundo das lutas democráticas contra a ditadura militar e vinculado ao MDB e posteriormente ao PMDB, Max representou um projeto político identificado com a redemocratização do país e com pautas de caráter social. Seu governo abriu espaço para uma nova geração de lideranças e ajudou a consolidar um campo político mais plural no Espírito Santo. 

Outro capítulo histórico foi escrito com a eleição de Albuíno Azeredo em 1990. Filiado ao PDT, partido herdeiro do trabalhismo de Leonel Brizola, Albuíno assumiu o governo em 1991 e tornou-se um dos primeiros governadores negros da história do Brasil. Sua trajetória, marcada pela ascensão social a partir de origens humildes, simbolizou uma ruptura importante em um cenário político tradicionalmente dominado por elites brancas e economicamente privilegiadas. 

Entretanto, foi em 1994 que o Espírito Santo protagonizou um dos acontecimentos mais significativos da política brasileira contemporânea. Naquele ano, o médico Vitor Buaiz foi eleito governador pelo Partido dos Trabalhadores, tornando-se o primeiro governador petista eleito no Brasil após a redemocratização. Médico, professor universitário, fundador do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo e participante ativo dos movimentos sociais e democráticos, Buaiz representava uma combinação até então rara na política nacional: um intelectual da esquerda, ligado ao sindicalismo e influenciado pela tradição da esquerda católica.

Antes de chegar ao Palácio Anchieta, Vitor Buaiz havia sido prefeito de Vitória entre 1989 e 1992, gestão frequentemente lembrada pelas iniciativas nas áreas de participação popular, educação, cultura e assistência social. Sua eleição para o governo estadual demonstrou que o Espírito Santo era capaz de romper paradigmas e abrir caminhos que posteriormente seriam percorridos por outras experiências progressistas em âmbito nacional. 

Três décadas depois, o estado se vê novamente diante de uma encruzilhada política. Em um cenário nacional marcado pela ascensão da extrema-direita e pela radicalização do debate público, surge a possibilidade de uma nova alternativa progressista para o governo capixaba: o deputado federal Hélder Salomão.

Ex-prefeito de Cariacica, um dos municípios mais populosos e historicamente mais vulneráveis do Espírito Santo, Hélder construiu sua trajetória política associada à defesa da educação pública, da inclusão social, da participação popular e da ampliação de políticas voltadas para a redução das desigualdades. Durante sua gestão municipal, Cariacica registrou avanços em áreas como educação, infraestrutura urbana e segurança cidadã, contribuindo para transformar a realidade de uma cidade frequentemente associada à violência e à exclusão social.

Sua atual candidatura ao governo estadual representa mais do que uma simples disputa eleitoral. Ela simboliza o reencontro do Espírito Santo com uma tradição política que já produziu experiências inovadoras e pioneiras no passado. Da mesma forma que Max Mauro, Albuíno Azeredo e Vitor Buaiz representaram momentos de ruptura com padrões estabelecidos, Hélder Salomão surge como uma alternativa ao avanço das forças da extrema-direita no estado.

O Espírito Santo já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, que é capaz de surpreender o Brasil. Talvez esteja novamente diante da oportunidade de escolher entre a continuidade de uma tradição conservadora e também de extrema-direita ou a construção de um novo ciclo político voltado para a inclusão social, a democracia e o desenvolvimento humano.

Helder tem experiência consagrada, é acessível e educado no diálogo com todas as matizes ideológicos, e conta com um handicap a mais e que nenhum outro tem: sua proximidade com Lula, virtual vencedor deste pleito nacional.

Francisco Celso Calmon

Assine nossa newsletter para receber notícias diárias!

Avatar photo

Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *