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A JUSTIÇA que procura corresponder à expectativa da plateia, busca aplausos e abandona o rigor da técnica jurídica.

Marielle incomodava ao sistema. Era síntese da luta de classes, trabalhadora, mulher, negra, da periferia, lgbt, ativista política, empoderada institucionalmente como vereadora das mais combativas.

O assassinato da Marielle tinha rastros e evidências convergindo para as casas dos bolsonaros como mandantes.

Aí, o assassino, delator premiado, desvia os indícios e evidências e aponta para os irmãos Brazão.

Pronto! Encerrado o caso, mesmo sem uma cadeia de causalidade sólida. Estranho, não?

Moro, quando ministro da justiça do Bolsonaro, foi falar com o porteiro do condomínio da Barra da Tijuca, residência da FAMIGLIA, constrangendo-o, provavelmente ameaçando e o caro sumiu? Ninguém sabe, ninguém viu, quando deveria ter ficado sob proteção. Cadê o porteiro, ou a culpa é do mordomo?

Essa reviravolta no caso Marielle realmente levanta suspeitas. Os indícios contra os Bolsonaro eram fortes e concretos, não dá para simplesmente ignorá-los sem explicações convincentes de uma cadeia DE CAUSALIDADE.

A delação do Lessa mudou tudo; delação de criminoso não pode ser verdade absoluta, ainda mais premiada e sem provas sólidas. E a linha do porteiro/condomínio foi descartada de forma muito superficial, considerando as conexões óbvias da milícia com aquele núcleo.

Os condenados podem ser os maiores bandidos, contudo, à medida que a linha que levava ao clã Bolsonaro foi descartada sem maiores explicações, ficou um mistério no ar, fica uma inquietude quanto a perícia da Justiça.

Isso não significa inocentar os Brazão, mas, sim, questionar: por que a linha investigativa que apontava para a casa de Jair Bolsonaro, com conexões factuais e testemunhos, foi tão facilmente desacreditada?

Enquanto o bolsonarismo comemora o fato de o “clã” não ter sido formalmente acusado, a esquerda governista utiliza a resolução do caso como um trunfo político da gestão Lula e da Polícia Federal. A verdade material, nesse jogo, talvez, tenha ficado em segundo plano.

No entanto, a análise de conjuntura nos obriga a olhar para o que as estruturas não dizem. O “canhão” da investigação, para usar a expressão do delator, foi desviado. Os rastros que levavam ao núcleo político-midiático-militar que acendera com o bolsonarismo foram apagados pela versão “oficial” do inquérito. A justiça, ao eleger os Brazão como a personificação do mal, absolve o sistema que os criou e os manteve no poder por décadas.

Viver para ver. Viveremos para ver se as investigações sobre as conexões da milícia com o alto clero da política nacional serão retomadas? Viveremos para ver se a “memória” da qual falou o ministro Cristiano Zanin será seletiva ou se, de fato, servirá para impedir que novas Marielles sejam assassinadas.

Enquanto o “gabinete do ódio” e o “escritório do crime” forem duas faces da mesma moeda, a frase de Marielle continuará mais viva do que nunca: “Não nos matarão o sonho da liberdade”.

Para a história este caso não está encerrado. Viver para ver.

Francisco Celso Calmon em coautoria com Ligia Bacarin, professora de história, Doutora em Educação e especialista em Neuropsicopedagogia

25/02/26

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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