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A morte de JK: dois lutos e a luta por memória, verdade e justiça

Comissão reconhece Juscelino Kubitschek como vítima da violência política da ditadura

Quase cinquenta anos após a morte de Juscelino Kubitschek, um dos presidentes mais importantes da história brasileira, novas conclusões da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos voltam a colocar em xeque a versão oficial que durante décadas prevaleceu sobre o episódio.

Em entrevista ao Canal Pororoca, a presidente da Comissão, Eugênia Gonzaga, afirmou que a recente declaração do órgão reconhecendo a morte de JK como decorrente de perseguição política não surgiu de interpretações ideológicas ou conveniências políticas. Segundo ela, a decisão se apoia em elementos documentais que teriam sido ignorados ou silenciados ao longo dos anos.

O ponto central da controvérsia envolve a famosa tese de que o carro de Juscelino teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa antes de atravessar o canteiro central da Via Dutra e colidir com um caminhão no sentido contrário.

Segundo Gonzaga, essa versão teria servido de base para praticamente toda a narrativa construída posteriormente sobre o caso. O problema, afirma ela, é que decisões judiciais da década de 1970 já apontavam que essa colisão traseira nunca ocorreu.

“Não é que o motorista do ônibus foi inocentado. A própria batida nunca existiu”, declarou.

A afirmação é uma das mais impactantes trazidas pela Comissão. De acordo com a análise apresentada por Gonzaga, testemunhas presentes no ônibus e decisões judiciais posteriores teriam descartado a ocorrência da colisão, que por décadas foi tratada como fato consumado.

O motorista que carregou a culpa

Outro aspecto destacado na entrevista foi a história de Josias Nunes de Oliveira, motorista do ônibus envolvido no episódio.

Mesmo absolvido judicialmente, Josias teria convivido por décadas com a suspeita pública de que sua condução causara a morte do ex-presidente.

Segundo Gonzaga, o caso teve consequências devastadoras para sua vida pessoal e profissional. A comissão considera que ele próprio acabou se tornando uma vítima indireta da narrativa construída em torno do acidente.

Provas destruídas e perguntas sem respostas

A comissão também aponta falhas graves na investigação original.

Entre elas estão a destruição do veículo, a ausência de exames considerados fundamentais e a perda de elementos que poderiam esclarecer as causas do descontrole do automóvel conduzido pelo motorista Geraldo Ribeiro.

Se a colisão traseira não ocorreu, surge uma pergunta central: o que levou o carro de JK a atravessar o canteiro central e seguir em direção ao caminhão?

A resposta definitiva talvez nunca seja conhecida. Mas, segundo a Comissão, a destruição ou desaparecimento de evidências não pode beneficiar justamente os responsáveis pela perseguição política existente naquele contexto.

Operação Condor e o contexto internacional

A reavaliação do caso também leva em consideração o contexto político da época.

Em 1976, quando JK morreu, diversas ditaduras sul-americanas atuavam em cooperação por meio da chamada Operação Condor, mecanismo de perseguição a opositores políticos em toda a região.

Na entrevista, Eugênia Gonzaga lembrou que outros casos posteriormente reconhecidos como assassinatos políticos foram inicialmente apresentados como acidentes, entre eles o da estilista Zuzu Angel.

A Comissão considera relevante o fato de Juscelino ser, naquele momento, uma das principais lideranças civis capazes de influenciar uma futura transição democrática no Brasil.

A decisão da Comissão também ganha relevância quando observado o contexto latino-americano da década de 1970. Naquele período, as ditaduras do Cone Sul cooperavam entre si por meio da Operação Condor, estrutura clandestina destinada à perseguição, sequestro e eliminação de opositores políticos.

Diversas lideranças da região morreram em circunstâncias posteriormente associadas à repressão política. Entre os casos mais conhecidos estão o do ex-comandante do Exército chileno, General Carlos Prats, assassinado em Buenos Aires em 1974, e o do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, morto em um atentado a bomba em Washington, em 1976. Ambos os crimes foram posteriormente vinculados aos aparatos repressivos da ditadura de Augusto Pinochet.

É nesse ambiente de perseguição transnacional que a Comissão insere a morte de Juscelino Kubitschek, então uma das mais importantes lideranças civis brasileiras e potencial articulador de um processo de redemocratização.

Uma mudança na interpretação da história

Se durante décadas a morte de JK foi compreendida como um acidente automobilístico, a nova conclusão oficial do Estado brasileiro aponta para uma interpretação distinta: a de que o ex-presidente foi vítima da perseguição política promovida pela Ditadura militar.

A decisão não encerra o debate. Pelo contrário. Ela abre uma nova etapa de investigação histórica, acadêmica e jornalística.

O desafio agora é compreender por que documentos, testemunhos e decisões judiciais que colocavam em dúvida a versão oficial permaneceram por tanto tempo fora do centro da discussão pública.

Quase meio século depois, a pergunta continua em aberto: o Brasil conhece toda a verdade sobre a morte de Juscelino Kubitschek?

Dois lutos

Para Eugênia Gonzaga, a história de JK é marcada por dois lutos distintos. O primeiro foi o da perda física do ex-presidente. O segundo foi o da negação da verdade sobre as circunstâncias de sua morte.

Ao reconhecer oficialmente Juscelino Kubitschek como vítima da violência política do regime militar, o Estado brasileiro busca reparar uma dívida histórica que atravessou gerações. Mais do que recontar um episódio do passado, a decisão reafirma a importância da memória, da verdade e da justiça como pilares da democracia.

A pergunta que durante décadas mobilizou pesquisadores, familiares e defensores dos direitos humanos talvez tenha recebido sua resposta institucional mais contundente. O desafio que permanece é fazer com que essa verdade alcance a sociedade brasileira e ocupe o lugar que lhe cabe na história nacional.

O silêncio da grande imprensa atesta o quanto foi irresponsável alimentando as narrativas mentirosas do passado. 

É a oportunidade de correção publicando o parecer oficial  da Comissão de Estado e entrevistando a sua coordenadora, a procuradora federal, Eugênia Gonzaga.

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