Autocrítica que nunca houve
Se arrependimento matasse, Lula, a esta altura, estaria em outro planeta.
Quando se observa a crise que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal, é impossível ignorar a responsabilidade política daqueles que, durante anos, tiveram a oportunidade de construir uma Corte de perfil completamente diferente.
Durante seus mandatos, Lula e Dilma indicaram um número significativo de ministros. Houve, portanto, uma oportunidade histórica de contribuir para a formação de um Supremo comprometido com valores progressistas, com profundo conhecimento jurídico, retidão moral, defesa rigorosa da Constituição e, sobretudo, com os interesses maiores do Brasil.
Mas as escolhas não produziram esse resultado.
Foram muitos os equívocos. Alguns deles, hoje, parecem ainda mais graves diante do cenário de tensão, disputas internas e instabilidade institucional que envolve o Supremo. O caso de Luiz Fux é um dos exemplos mais controversos dessas escolhas, especialmente pelas histórias decisões políticas que cercaram sua trajetória até chegar à Corte.
O resultado é que o STF poderia estar vivendo outra realidade.
Bastaria que algumas escolhas tivessem sido diferentes. Não seria necessário transformar o Supremo em um tribunal partidário, como certamente acusariam os adversários. O que se esperava eram ministros comprometidos com a Constituição, com a democracia, com a República e com uma visão de país.
Se Lula não tiver cuidado nas próximas indicações, corre o risco de repetir uma política de escolhas que, no futuro, poderá cobrar um preço ainda maior. A possível indicação de Jorge Messias, por exemplo, precisa ser analisada também sob esse prisma político. A simples identificação religiosa de um indicado não deveria ser, por si só, um critério determinante. Mas é preciso observar as alianças, as posições políticas, as concepções de Estado e o papel que determinado ministro poderá desempenhar dentro da Corte.
O Brasil não precisa de um STF religioso, nem de um STF ideológico a serviço de qualquer governo. Precisa de um Supremo independente, constitucionalmente comprometido, tecnicamente qualificado e politicamente consciente de sua responsabilidade histórica.
Lula e Dilma tiveram oportunidades que dificilmente se repetirão na mesma proporção. E é legítimo perguntar: o que fizeram com elas?
Talvez seja tarde para corrigir algumas escolhas. Mas não deveria ser tarde para reconhecer os erros. O problema é que, até hoje, a autocrítica que seria necessária simplesmente nunca houve.
