Globo demite diretor após mensagens com Vorcaro exporem relação entre mídia, publicidade e poder econômico
O Grupo Globo demitiu nesta quinta-feira (15) Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, após a divulgação de conversas mantidas com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. As mensagens, extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário, revelam uma relação próxima entre os dois, com negociações comerciais, convites para encontros privados e discussões sobre reportagens publicadas pelos veículos do conglomerado. Kachar estava havia 29 anos na empresa e ocupava uma posição estratégica na estrutura de comunicação do grupo.
Segundo as mensagens divulgadas, Vorcaro recorria a Kachar para tratar de conteúdos de seu interesse e buscar espaço para promover negócios ligados à sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff. Os diálogos também mostram negociações de patrocínios para eventos da Editora Globo, incluindo o Baile da Vogue e o camarote da empresa no Carnaval. De acordo com informações publicadas pelo UOL, os registros mencionam contratos publicitários de centenas de milhares de reais. A proximidade comercial, por si só, não comprova que a cobertura jornalística tenha sido determinada pelos interesses do banqueiro, mas levanta questionamentos sobre os limites entre publicidade, relações pessoais e independência editorial.
As conversas também revelaram que Vorcaro reclamava de reportagens críticas aos seus negócios e questionava o tratamento dado ao Banco Master por jornalistas do grupo. Em alguns diálogos, Kachar respondia às reclamações e discutia o conteúdo publicado, embora também tenha defendido o trabalho jornalístico em determinadas ocasiões. Esse conjunto de mensagens exige uma apuração cuidadosa sobre a extensão da influência exercida pelo empresário e sobre a preservação da autonomia das redações. Não basta que uma empresa declare defender a independência editorial: é necessário que existam práticas transparentes capazes de proteger o jornalismo de pressões comerciais e relações privilegiadas.
Em nota, o Grupo Globo afirmou que as conversas revelaram uma relação inadequada entre o executivo e um anunciante e reafirmou seu compromisso com a ética, a transparência e a independência editorial. A demissão é uma resposta da empresa à gravidade do episódio, mas não encerra as perguntas levantadas pelas revelações. O caso também reforça a necessidade de acompanhar as relações entre o poder financeiro e os grandes conglomerados de comunicação, especialmente quando interesses privados se aproximam de espaços que deveriam servir à informação pública.
A credibilidade do jornalismo se sustenta na transparência de suas práticas, na autonomia de seus profissionais e no compromisso com a verdade, o que o Grupo Globo, claramente não possui.
