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Irã em tensão: protestos, sanções e os sentidos em disputa

Os protestos que atravessam o Irã desde o final de 2025 recolocaram o país no centro do noticiário internacional. Em poucas semanas, imagens de manifestações, repressão policial e denúncias de mortes passaram a circular intensamente na mídia ocidental, acompanhadas por análises que apontavam para um suposto colapso iminente do regime vigente. No entanto, como observou o jornal Outras Palavras, o entusiasmo inicial deu lugar ao silêncio quando a realidade mostrou-se mais complexa do que o roteiro esperado.

As manifestações, deflagadas em 28 de dezembro, inicialmente em Teerã, são reais e evidenciam tensões profundas da sociedade iraniana. Elas tiveram início a partir de reivindicações econômicas concretas: inflação acima de 40%, forte desvalorização do rial, encarecimento de alimentos básicos e desemprego crescente. Em 2025, a moeda iraniana perdeu cerca de metade de seu valor frente ao dólar, chegando a ser negociada a mais de 1,1 milhão de riais por dólar. Esse colapso econômico não pode ser compreendido sem considerar o peso das sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, intensificadas desde a retirada unilateral de Washington do acordo nuclear em 2018, durante o primeiro governo Donald Trump.

Nesse percurso histórico, a questão nuclear emerge como pretexto recorrente para a intensificação do isolamento do país. Desde a década de 2000, o programa nuclear iraniano tem sido mobilizado como signo de ameaça absoluta, frequentemente descolado de inspeções, acordos e negociações multilaterais que o próprio Ocidente abandona quando lhe convém. A retirada unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear não apenas rompeu um pacto diplomático, como reafirmou a assimetria do jogo.

É nesse entrelaçamento entre heranças históricas, pressões externas e tensões internas acumuladas que se conforma o cenário de instabilidade no qual as manifestações recentes puderam emergir.

Todos esses conflitos expressam-se, no presente, por meio de uma crise política e social multifacetada, materializada em manifestações que reuniram atores distintos e, por vezes, antagonistas. Os primeiros focos de mobilização emergiram a partir de greves de comerciantes e trabalhadores urbanos em grandes centros como Teerã, Mashhad e Isfahan, impulsionados pelo encarecimento do custo de vida e pela perda de renda. À medida que os protestos se ampliaram, passaram a incorporar jovens e estudantes universitários, sobretudo em áreas centrais e bairros periféricos, articulando reivindicações econômicas a críticas mais amplas ao funcionamento do regime. Paralelamente, também ocorreram atos de apoio ao governo e mobilizações em defesa da soberania nacional, muitas delas marcadas pela rejeição explícita às intervenções dos Estados Unidos. O resultado foi a exposição de um tecido social profundamente tensionado, no qual oposição ao governo, lealdades institucionais, nacionalismo defensivo e frustrações geracionais coexistem de forma conflitiva.

Essa conjuntura inscreve-se numa longa história de disputas internas e enfrentamentos externos que moldaram a identidade política iraniana. Da Revolução Constitucional de 1906 ao golpe de 1953, articulado com apoio estrangeiro; da Revolução Islâmica de 1979 às décadas de sanções e isolamento, o Irã se construiu na tensão permanente entre projetos de modernização, religião, nacionalismo e resistência à ingerência ocidental. Reduzir esse processo a uma sociedade monolítica, religiosa ou irracional é apagar deliberadamente suas contradições.

É justamente nesse ponto que a lente do orientalismo, tal como formulada por Edward Said, ajuda a iluminar o debate. O problema não está apenas no que se diz sobre o Irã, mas, sobretudo, na forma como se diz. Ao produzir uma imagem homogênea do “Oriente”, o discurso ocidental converte sociedades historicamente complexas em massas indistintas, permanentemente instáveis, sempre à beira do colapso e, por isso mesmo, apresentadas como necessitadas de tutela externa.

Ao esvaziar as contradições presentes no país, as tensões políticas deixam de ser reconhecidas como disputas legítimas e passam a funcionar como justificativa moral para sanções, intervenções e isolamento internacional. No lugar de conflitos sociais reais, com raízes econômicas e históricas, constrói-se a imagem de um povo incapaz de autodeterminação.

No caso iraniano, essa lógica simplificadora apaga elementos centrais da conjuntura atual. Os protestos contra o regime coexistem com manifestações massivas em defesa da soberania; críticas internas caminham lado a lado com a rejeição à ingerência estrangeira; e a sociedade é atravessada por disputas morais, econômicas, religiosas e geracionais profundas. Ao retirar essas contradições de cena, consolida-se um imaginário conveniente, no qual o povo iraniano aparece apenas como vítima passiva ou como ameaça latente.

A narrativa, nesse sentido, torna-se uma arma política. É por meio dela que o Oriente é reiteradamente categorizado como o “Outro”: perigoso, irracional, terrorista ou bárbaro. Essa construção discursiva cumpre uma função precisa — legitimar o uso da violência, naturalizar sanções econômicas devastadoras e tornar aceitável, aos olhos da opinião pública ocidental, o sofrimento imposto a populações inteiras.

Por essa perspectiva, os discursos amplamente difundidos no Ocidente obedecem a uma lógica própria, que negligencia sistematicamente os processos históricos e sociopolíticos.

É assim que o sistema de representações produzido pelo orientalismo conquista eficácia: ao mesmo tempo em que sustenta relações assimétricas de poder, cria vastas teias imagéticas capazes de conduzir emoções, organizar consensos e transformar a complexidade de sociedades reais em caricaturas funcionalmente úteis à dominação.

Essa construção discursiva ganha ainda mais força quando articulada à política externa dos Estados Unidos e de seus aliados. As sanções econômicas, apresentadas oficialmente como instrumentos de pressão sobre o governo iraniano, incidem diretamente sobre a vida cotidiana da população, aprofundando desigualdades e alimentando a própria insatisfação social que depois é mobilizada como prova da “falência” do país. Ao mesmo tempo, o apoio irrestrito de Washington a Israel e a retórica de ameaça constante contra o Irã reforçam um ambiente hostil.

Nesse contexto, protestos, repressões e crises econômicas não podem ser analisados isoladamente. Eles fazem parte de um mesmo tabuleiro político, no qual disputas internas são permanentemente atravessadas por interesses geopolíticos.

Romper com leituras simplificadoras é condição necessária para evitar que sociedades inteiras sejam tratadas como abstrações governáveis e para recolocar os próprios iranianos — em sua diversidade e contradições — no centro da história que vivem e disputam.

Fontes de informação: Outras Palavras; G1; Carta Capital e CNN Brasil.

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Um comentário sobre “Irã em tensão: protestos, sanções e os sentidos em disputa

  • O texto tem uma perspectiva contra-hegemonica acerca dos acontecimentos vividos pelo povo iraniano trazendo à luz do debate as imposições imperialistas feitas principalmente pelo racista Donald Trump. Excelente!

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