QUE VENHA 2026
João Ricardo Dornelles
(Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da PUC-Rio; Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio; membro do Instituto Joaquín Herrera Flores/América Latina; membro do Coletivo Fernando Santa Cruz; Analista Político do Canal Iaras e Pagus/Youtube).
Com certeza eu vou esquecer muitos eventos ocorridos no decorrer de 2025, mas vale a pena relembrar algumas dessas situações , positivas e negativas, pois deixaram marcas e suas consequências possivelmente estarão presentes no ano de 2026.
Começamos pela posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. A primeira surpresa é que o seu mandato ainda não completou um ano e a sensação que temos é que o fanfarrão fascista ocupa há anos a cadeira da presidência. O seu governo começou com ameaças dirigidas ao mundo todo, já anunciadas no discurso de posse, em conjunto com o seu vice JD Vance.
De cara disse que “os inimigos dos EUA, externos e internos, seriam os alvos do governo”. Ameaçou invadir o Panamá, o México, a Groenlândia, anexar o Canadá. Criou um tarifaço global, mobilizou a guarda nacional e colocou suas tropas contra a população das cidades governadas pelos democratas, especialmente as que têm prefeitos negros e mulheres.
Transformou a polícia de imigração (ICE) em uma verdadeira Gestapo e passou a perseguir, prender e deportar imigrantes, mesmo aqueles legalizados, separando famílias e criando pânico na população. Deslocou a frota de guerra para a costa da Venezuela, assassinou mais de cem pescadores venezuelanos e colombianos, roubou (com uso de violência), até o momento, três petroleiros da Venezuela. Trump mostrou a verdadeira face dos Estados Unidos, uma ditadura plutocrática, violadora de direitos humanos, que não cumpre as normas do direito internacional, que coloca em risco a paz no mundo e o seu próprio povo.
Trump também apresentou a nova política de segurança nacional dos Estados Unidos, centrando a sua atuação na retomada do “seu quintal”, a América Latina, e apontando as suas armas contra a Venezuela e a Colômbia.
Na América Latina, o imperialismo neoliberal neofascista conseguiu algumas vitórias. Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, Argentina, Peru estão sob governos da direita neofascista e neoliberal. Em 2026 teremos, nos meses de maio e junho, eleições presidenciais na Colômbia, com o risco de que a extrema-direita volte ao poder. Em outubro serão as eleições brasileiras com a possível reeleição de Lula, mas também com a possibilidade de um novo congresso pior do que o atual.
Enquanto isso, a Venezuela resiste aos ataques dos Estados Unidos e o cerco que se fecha.
Foi um ano onde as investigações sobre a tentativa de golpe violento por parte de Bolsonaro, militares e a extrema-direita brasileira revelaram que se pretendia assassinar o Presidente Lula, o Vice Alckmin e o Ministro Alexandre de Moraes e colocar o país sob uma ditadura.
Todas essas revelações juntamente com provas robustas levaram ao banco dos réus e à condenação o ex-presidente Bolsonaro e uma quantidade razoável de militares de alta patente.
Por outro lado, os senhores da guerra ocidentais tocam alto os seus tambores, com a remilitarização da Alemanha, com Macron e Starmer anunciando que seus jovens devem se preparar para a guerra contra a Rússia. E por falar em Rússia, continua em alta na Europa a ensandecida “russofobia”, onde diariamente a grande imprensa bombardeia a população europeia com suas fantasiosas mentiras de que no dia seguinte acordarão com um tanque russo na porta de casa. Aqui, em terras europeias, vive-se a loucura, como se um cidadão lisboeta, a 5.000 km de distância de Moscou, estivesse ameaçado pelas tropas de Putin.
O Ocidente não apenas está em decadência e degradação moral, como passou a viver em um universo paralelo.
E por falar em Ocidente e suas ações pelo mundo afora, lembramos de um cessar-fogo de mentirinha que em nada mudou a prática do Genocídio em Gaza e a violenta ofensiva sionista na Cisjordânia, Líbano e Oriente Médio em geral. Na verdade o braço fascista do sionismo não se restringe à Ásia Ocidental (o chamado Oriente Médio), mas está presente em todo o mundo, inclusive dentro do território brasileiro, ameaçando as liberdades democráticas , os
direitos humanos e os valores de emancipação humana. O que muitos já sabiam foi confirmado em 2025, o sionismo é uma das pragas da atualidade.
A guerra na Ucrânia ainda está em curso, na verdade uma guerra da Otan contra a Rússia, uma guerra por procuração em que o povo ucraniano entra como bucha de canhão para os interesses do decadente Ocidente Coletivo Ampliado.
Falando em decadência, nada mudou em relação à indecente e pusilânime posição europeia, enterrando todas as conquistas civilizatórias da sua história e preferindo realçar as suas vergonhosas características colonialistas e supremacistas. Mas também mostrando a traição covarde das lideranças europeias em relação aos seus próprios povos.
Também tivemos a eleição em Nova York de um prefeito socialista e muçulmano, Zohran Kwame Mamdani. A decadência do império também cria terremotos internos e podemos vir a presenciar no futuro o renascimento de um forte movimento de esquerda naquele país.
O Brasil, como um dos países mais importantes do Sul Global, está sob o cerco da extrema-direita fascista neoliberal com forte sustentação interna em forças políticas neofascistas e neoliberais representadas pelos bolsonaristas, pelas classes dominantes colonizadas oligárquicas e seus inúmeros representantes, no agro, na Faria Lima, nos grandes meios de comunicação, na alta cúpula militar, nas igrejas e em grande parte das classes médias.
O ano de 2025 também aqueceu um pouco os nossos corações com a premiação do Óscar de melhor filme estrangeiro para o filme “Ainda estou aqui”, levando ao grande público, nacional e estrangeiro, a mensagem de que tortura e ditadura nunca mais.
Que venha 2026, seus desafios, conflitos, lutas e resistências. Que venham as eleições de 2026 no Brasil e consigamos abrir o caminho para o futuro.
Vila Nova de Gaia, 23 de dezembro de 2025.
