Ualid Rabah associa soberania brasileira à reindustrialização e à autonomia tecnológica
Presidente licenciado da Fepal avalia que eleição de 2026 definirá rumos do país em áreas como indústria, defesa, tecnologia e política externa
O debate sobre a soberania brasileira ganhou novos contornos na reta final das eleições de 2026. Em entrevista à TV 247, Ualid Rabah, presidente licenciado da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) e candidato a deputado federal, defendeu que a autonomia do país não deve ser compreendida apenas pela capacidade de defesa territorial ou pela política externa, mas também pela força da indústria, pelo domínio tecnológico e pelo controle de recursos estratégicos.
Para Rabah, a eleição presidencial representa uma disputa entre diferentes projetos de desenvolvimento e inserção internacional do Brasil. O entrevistado associa a continuidade do projeto de soberania que defende à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“O grande enfrentamento é entre a possibilidade de o presidente Lula continuar presidindo o Brasil e, consequentemente, continuar um projeto de soberania”, afirmou Rabah.
Soberania para além do discurso
Na avaliação de Rabah, discutir soberania exige tratar de questões concretas da economia brasileira. Ele defendeu a reconstrução da capacidade industrial do país e citou setores como máquinas agrícolas, caminhões, informática, fertilizantes, petróleo, defesa e tecnologia.
O argumento é que a dependência de fornecedores estrangeiros em áreas estratégicas limita a autonomia brasileira. Como exemplo, Rabah mencionou o agronegócio: para ele, não basta o Brasil ser um grande produtor de alimentos se máquinas, equipamentos, insumos e tecnologias utilizados no campo continuarem dependendo do exterior.
“Nós precisamos discutir reindustrialização estratégica”, afirmou.
A defesa da industrialização também aparece em medidas recentes do governo Lula, como a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, sancionada em setembro. A iniciativa busca ampliar o processamento desses recursos no país e sua participação em cadeias tecnológicas.
Tecnologia também é questão de soberania
Outro eixo da entrevista foi a soberania digital. Rabah argumentou que a dependência brasileira de plataformas e infraestruturas digitais estrangeiras representa uma vulnerabilidade que ultrapassa o debate sobre redes sociais.
Para o dirigente, o país precisa desenvolver capacidade própria em áreas como armazenamento de dados, comunicação, infraestrutura digital e segurança cibernética.
“Quando nós falamos em soberania digital, não estamos falando apenas de brigar com Instagram ou de regulação. O que está em jogo é: nós teremos nossas plataformas ou não?”, questionou.
O tema também esteve presente no discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, onde o presidente defendeu a criação de regras para grandes plataformas digitais e para o desenvolvimento da inteligência artificial, relacionando a questão à proteção da democracia e dos cidadãos.
Defesa e mudança no cenário internacional
Rabah também defendeu uma atualização da política de defesa brasileira diante das mudanças no cenário internacional. Segundo ele, parte das concepções que orientam a estratégia militar brasileira ainda estaria vinculada à lógica da Guerra Fria.
O entrevistado citou a aproximação do Brasil com China, Rússia, Índia e demais países dos Brics como parte de uma transformação na política externa brasileira.
Na sua avaliação, a política de defesa deveria acompanhar essa reorganização internacional, com maior investimento na indústria nacional de defesa, intercâmbio militar e desenvolvimento tecnológico.
Nesse contexto, Rabah mencionou o programa brasileiro de submarino de propulsão nuclear e defendeu o desenvolvimento nacional de tecnologias relacionadas ao ciclo do combustível nuclear para fins pacíficos e estratégicos.
Brics e política externa
A política externa é outro componente central da concepção de soberania defendida pelo entrevistado. Rabah destacou a ampliação dos Brics, as relações Sul-Sul e a busca por alternativas aos sistemas financeiros internacionais tradicionais.
“O presidente Lula aprofundou as relações Sul-Sul, aprofundou as relações com os Brics e está implicado na construção de um banco dos Brics muito mais sólido”, afirmou.
O tema da autonomia nacional também foi enfatizado por Lula em seu pronunciamento na ONU, realizado em 22 de setembro. O presidente relacionou soberania, democracia e resistência a interferências externas e afirmou que as decisões sobre os rumos do Brasil devem caber aos brasileiros.
Soberania no cotidiano
Para Rabah, entretanto, o conceito não pode permanecer restrito à diplomacia ou à defesa. Ele relaciona soberania diretamente às condições de vida da população.
Na entrevista, o candidato citou acesso à alimentação, crédito, emprego, universidades públicas, Sistema Único de Saúde e educação como dimensões de um projeto de autonomia nacional.
“Uma coisa não anula a outra”, afirmou, ao defender que soberania e políticas sociais devem ser tratadas como partes de um mesmo projeto.
A partir dessa concepção, Rabah sustenta que produzir tecnologia, controlar recursos estratégicos, fortalecer a indústria nacional e garantir serviços públicos são elementos de uma mesma estratégia de desenvolvimento.
Eleição e projeto de país
É nesse ponto que o entrevistado estabelece sua principal relação com a eleição de 2026. Para Rabah, a escolha presidencial terá impacto sobre a orientação econômica, industrial, tecnológica e diplomática do país nos próximos anos.
Ele também ressalta que a execução desse projeto dependerá da composição do Congresso Nacional. Segundo sua avaliação, políticas de industrialização, defesa e investimento público exigiriam uma base parlamentar capaz de sustentá-las.
A entrevista, portanto, coloca a soberania no centro de um debate que ultrapassa a política externa. Na visão apresentada por Rabah, a capacidade de um país decidir sobre seus recursos, produzir aquilo de que necessita e desenvolver tecnologia própria está diretamente ligada à possibilidade de definir seus próprios caminhos diante das disputas internacionais.
