Pesquisas eleitorais, a que servem?
No Estado Democrático de Direito, que vige em muitos países, inclusive no Brasil, com peculiaridades caso a caso, as eleições são o momento mais destacado da democracia.
De tempos em tempos a população eleitora vai às urnas. No caso brasileiro, que é de quatro em quatro anos, temos eleições intercaladas a cada dois anos, ora para prefeito e vereador, ora para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.
A enquete feita junto ao eleitorado para sondar o que as pessoas pensam sobre os nomes à disposição para ocupar cargos no poder executivo e no poder legislativo teve, em 1936, nos EUA, realizada por George Gallup, seu primeiro registro histórico. No Brasil, em 1945, existe o registro da primeira pesquisa feita pelo IBOPE.
Com o passar do tempo as pesquisas passaram a ser componente do processo eleitoral. No caso do Brasil, passou a ser, inclusive, objeto de legislação, regulamentação, fiscalização e judicialização.
Com o desenvolvimento científico e tecnológico, usando o ferramental estatístico, organizações se especializarem na coleta de dados, processamento, análise e divulgação das chamadas “pesquisas eleitorais”.
Como tudo no modo de produção capitalista vira mercadoria, negócio, isto também se tornou um “business”. A pesquisa junto ao público, diga-se de passagem, interessa a muitos fins, como para análise de marcas, produtos e serviços, avaliação de demandas da sociedade pelo poder público, dentre tantas outras.
Com o tempo as pesquisas eleitorais passaram, também a ser utilizadas pelos interessados na ação política: candidatos, partidos políticos, meios de comunicação e diversas organizações, particularmente empresariais, para se posicionarem e darem eventuais apoios.
As pesquisas eleitorais deixaram de ser apenas a leitura de uma realidade e passaram a ser instrumento de ação política. Isto tomou tal vulto que, nos orçamentos das campanhas eleitorais, a cada disputa de voto, valor relevante é alocado para a contratação destas pesquisas.
Os diversos interessados buscam melhorar sua “consciência situacional” e compreenderem o que está acontecendo com diversos focos: os candidatos querem informações para avaliarem se tem potencial eleitoral e propiciar informações para orientar estratégia de campanha; os partidos políticos, federações e coligações as usam para avaliarem o potencial de seus quadros eleitorais para decidirem nas convenções se terão vaga nas nominatas enviadas para registro na justiça eleitoral e posteriormente irem à busca do voto.
Apoiadores em geral querem conhecer os potenciais dos candidatos para prestarem apoio, colaborarem com o esforço de campanha, fazerem doações materiais e financeiras etc. Tudo isto é regulamentado pela justiça eleitoral que, a cada dia, é mais rigorosa. As empresas, por exemplo, não podem mais doar recursos financeiros para campanhas eleitorais, mas as pessoas físicas o podem, dentro de limites estabelecidos por normas formais.
Em algum momento se descobriu que os resultados das pesquisas eleitorais não apenas revelam hipotéticos cenários de disputa mas, também, podem ser utilizados como ferramenta de campanha em si. Resultados eleitorais que apontam potencial eleitoral são usados para sensibilizar eleitores em geral, visando consolidar votos já definidos mas, e principalmente, atrair novos votos de eleitores não definidos ou indecisos.
O perfil do eleitorado é muito complexo, dinâmico e sensível a “fatos novos”. Os resultados das pesquisas se incorporaram no dia a dia do processo político-eleitoral com tal intensidade que o ritmo intenso de divulgação levou as pessoas em geral a ficarem condicionadas pela próxima enquete, num processo que beira a componente viciante, com suas deletérias consequências.
O debate democrático de ideias e propostas é importantíssimo, mas olhar para as pesquisas como o potencial resultado de um futuro pleito ainda em curso pode ter um impacto anestesiante nos cidadãos, levando-os à letargia militante, reforçando a lógica de “olhar” para quem deve votar apenas nos últimos dias da campanha eleitoral, fenômeno já detectados repetidas vezes.
Um tema muito grave é a manipulação de pesquisas eleitorais visando determinados fins, seja para estimular a atração do voto para os que estão na frente das enquetes, seja para tirar os votos dos que estão atrás. Por isto o Estado, através do poder judiciário, particularmente o TSE e os TRE, a chamada “justiça eleitoral”, pensando no interesse público, exige o registro das pesquisas, a metodologia usada e um sem-número de detalhes para mitigar o risco da manipulação de dados.
Após a advento da internet, do celular e das redes sociais, cada vez mais em tempo real, a fluidez das informações leva à necessidade de mais fiscalização.
O “jogo eleitoral” gera uma dinâmica gravíssima: os candidatos e seus apoiadores procuram destruir a imagem do adversário para tirar-lhe os votos e os trazerem para si. O impacto aritmético e dobrado. O uso das pesquisas eleitorais incorporou, também, com muita força, a dinâmica de destruição da imagem do adversário.
Os mais experientes sabem que o “já ganhou” em disputa eleitoral é um perigo, pois gera um efeito anestesiante no eleitor e, o que é pior, no apoiador militante da candidatura, seja ela de que perfil político-ideológico for. Por isto mesmo, estar na frente das pesquisas eleitorais é um dado para análise, mas o que importa é o voto ser dado na urna no dia das eleições. O “jogo eleitoral” pode virar a qualquer momento, particularmente pelo poder de disseminação de fatos novos pelos modernos meios de comunicação que estão na palma da mão.
Pesquisa eleitoral é ferramenta de análise, não um fim em si mesmo, a não ser para os que ganham as produzindo e vendendo aos seus clientes.
Vamos adiante, lutando…e colocando as coisas no seu devido lugar!
Rodrigo Botelho Campos – economista
