Entre a soberania e o sabujismo
Por que a mídia brasileira dá tanto espaço a um foragido da Justiça e traidor da pátria como Eduardo Bolsonaro? Qual o papel que a imprensa escolhe desempenhar na construção do debate público?
Ao conceder espaço recorrente a personagens cuja atuação política se associa à confrontação institucional, à submissão a interesses estrangeiros e à desqualificação do próprio país, a mídia corre o risco de transformar a exposição em uma forma de legitimação. O que deveria ser tratado com o devido rigor jornalístico vem sendo apresentado como mais um capítulo do espetáculo político.
A imprensa tem o dever de informar, inclusive sobre aqueles de quem discorda. Que tipo de tratamento é oferecido, quais perguntas são feitas, quais responsabilidades são cobradas e em que contexto suas declarações são apresentadas? Dar espaço não pode significar oferecer uma tribuna sem contraponto, naturalizar comportamentos incompatíveis com a responsabilidade pública ou permitir que a política seja reduzida à performance, à provocação e à busca permanente de holofotes.
Por ser a representação da subserviência, incompatível com a tradição diplomática brasileira e com a defesa da autonomia do país, por buscar uma relação com os Estados Unidos em que a deferência ao poder estrangeiro parece se sobrepor à defesa dos interesses nacionais, Eduardo Bolsonaro é um sabujo de Trump.
Um país continental, com peso econômico, territorial, populacional e diplomático, não pode se comportar como satélite de nenhuma potência. A soberania não é um adorno retórico; é um princípio que exige autonomia de decisão, respeito às instituições e compromisso com os interesses da população brasileira.
A luta entre a mentira e a verdade; entre a experiência e o calouro; entre o popular e o elitista; entre o honesto e o corrupto; entre quem não se orienta pelo preconceito e o preconceituoso; entre a civilidade e a barbárie; entre o estadista e o histrião, entre o ficha limpa e o ficha suja.
A oposição entre a mentira e a verdade diz respeito à própria qualidade do debate público. A democracia depende da possibilidade de que os cidadãos tenham acesso a informações verificáveis para formar suas convicções. Quando a mentira é utilizada como método de mobilização, quando a falsidade é repetida até adquirir aparência de verdade e quando a realidade é substituída por narrativas convenientes, o debate político passa a ser uma disputa pela manipulação da percepção social. As eleições da Fake News comprovaram este ponto.
Está em disputa o sentido de representação política. De um lado, a defesa de um projeto que procura dialogar com as necessidades concretas da população, especialmente dos setores historicamente excluídos; de outro, uma política que pode se mostrar mais identificada com interesses elitistas, com privilégios e com a preservação de estruturas de poder. O popular, nesse contexto, não deve ser entendido como mera estratégia eleitoral, mas como compromisso com as condições reais de vida da maioria da população. A política só cumpre sua função democrática quando se ocupa do trabalho, da renda, da saúde, da educação, da moradia, da segurança e da dignidade humana.
A questão dos preconceitos igualmente ocupa lugar central nessa disputa. Uma sociedade democrática não pode ser construída sobre a humilhação de grupos sociais, a disseminação do ódio ou a transformação das diferenças em justificativa para a exclusão.
A barbárie política não se manifesta apenas em atos extremos. Ela também se expressa na banalização da violência verbal, na relativização de ameaças, na tentativa de desacreditar a Justiça quando suas decisões desagradam, na hostilidade contra a imprensa e na transformação de qualquer limite institucional em suposta perseguição.
Em oposição a esse modelo está a figura do estadista. O estadista não é aquele que nunca erra, tampouco aquele que está acima das críticas. É aquele que compreende que o exercício do poder exige responsabilidade histórica, visão de conjunto e compromisso com o interesse público. Sua atuação não se limita à próxima disputa eleitoral ou à satisfação imediata de sua base. Ele precisa pensar no país, nas instituições, nas gerações futuras e nas consequências de suas escolhas para além de seu próprio grupo político.
É o “nós” contra “eles”, mas não no sentido de uma guerra entre brasileiros: é o “nós” que defende a República contra “àqueles” que procuram submetê-la a interesses particulares, estrangeiros ou autoritários, é o nós, famélicos de justiça social, e eles que querem a manutenção da pirâmide da concentração de renda.
O Brasil não precisa de uma política que transforme a divergência em ódio nem de representantes que confundam liberdade de expressão com submissão a lideranças estrangeiras. Precisa de instituições fortes, de imprensa responsável, de debate público qualificado e de dirigentes capazes de compreender que a soberania nacional e a democracia não são moedas de troca.
Entre a soberania e o sabujismo, entre a verdade e a mentira, entre a civilidade e a barbárie, está em jogo o próprio sentido da política. E a defesa da democracia exige que o Brasil não aceite ser tratado como instrumento de projetos alheios, nem permita que a baixaria se transforme em método de governo ou que a submissão seja apresentada como patriotismo.
O bolsonarismo é herdeiro da ditadura militar, que por 21 anos infelicita a nação brasileira com sequelas até hoje não resolvidas, e favorece aos interesses ianques.
Prestar continência e beijar a bandeira do USA foi a manifestação maior dos patriotas bolsonaristas, contudo, foi um símbolo do que são: amantes do imperialismo americano e vilões do patriotismo brasileiro.
Francisco Celso Calmon
