A Violência que a Escola Pública Devolve: O Ato como Sintoma, Não como Patologia
Não se começa este artigo com estatísticas, mas com a crueza do real: o copo de água do professor quase envenenado pela astúcia de um aluno; a lâmina de vidro depositada como armadilha no recipiente da docente. A primeira reação da sociedade é o choque moralizante, seguido de um discurso policial que individualiza a patologia — “aluno psicopata”, “monstro”. Proponho o caminho inverso: o delito dos estudantes não é um desvio moral individual, mas a cristalização trágica de relações sociais. O que parece sadismo gratuito é a linguagem bárbara de uma instituição em degenerescência e colapso: a escola pública na periferia do capitalismo tardio.
O Que a Escola Pública Reproduz?
A escola não paira acima da sociedade; é um Aparelho Ideológico de Estado, no sentido althusseriano, cuja função é reproduzir as condições materiais e ideológicas da produção capitalista. Mas a escola pública já não reproduz a promessa do “cidadão produtivo”. Ela se tornou depósito de contenção de uma juventude da classe-que-vive-do-trabalho, para usar a categoria de Ricardo Antunes: não mais população excedente e descartada do mercado, mas trabalho vivo que o capital financeirizado já não promete absorver em emprego estável, e sim em precarização, intermitência, uberização.
Se a escola não possui uma função social emancipatória e nem oferece mais a ilusão da ascensão social, qual é o conteúdo real da relação pedagógica que resta? Ela se despe do véu ideológico e se revela como aparelho de disciplina e vigilância nu, onde o professor ocupa o lugar do capataz de uma fábrica que já fechou.
O sadismo do aluno, ao tentar envenenar e cortar os seus professores, não é dirigido contra a pessoa do professor. É revolta contra a única figura de autoridade tangível de um sistema que já o condenou ao descarte. O aluno não alcança o banqueiro, o político, a precariedade estrutural. Ataca o professor porque o professor está ali, corporificando a instituição que exige silêncio e imobilidade em troca de um futuro que não virá.
Aqui está o ponto central: o sadismo não é expressão de força, mas de impotência. A violência do Estado chega a esses alunos como falta de saneamento, fome, polícia na porta, currículo morto. Essa violência objetiva é internalizada e devolvida, dialeticamente, como violência subjetiva contra o elo mais frágil da corrente, ou seja, o professor, também proletarizado, também adoecido.
O vidro no copo é uma metáfora precisa: o aluno destrói o instrumento que o alimentaria. Sabota a própria possibilidade de aprender. É o processo que Paulo Freire descreve como hospedar a consciência do opressor: não podendo ser, o sujeito se volta contra quem testemunha diariamente a sua anulação. Há, nessa dinâmica, uma necropolítica em microescala — para retomar o conceito de Achille Mbembe: o aluno, cuja vida o capital trata como descartável, aprende a tratar a vida do outro como descartável.
Importante marcar o que esse gesto não é: não é reflexo neurológico “primitivo”, nem resposta límbica automática de um cérebro sob estresse. Reduzir o ato a essa chave biologizante repetiria, por outra via, o mesmo erro do discurso policial; despolitiza o gesto ao naturalizá-lo no corpo individual. Na perspectiva histórico-cultural, mesmo a violência é uma função psicológica mediada: aprendida, significada e dirigida socialmente. O aluno não regride a um estado pré-social; ele responde, com os instrumentos simbólicos que a miséria material lhe deixou, a uma violência que é, ela mesma, plenamente social.
Uma Instituição em Sucateamento
A escola pública, sob o neoliberalismo, foi submetida a um triplo processo de esvaziamento:
Material: salas superlotadas, falta de recursos, violência do entorno, fome. O corpo do aluno vive em estado de alerta permanente, e esse estado, social e materialmente produzido, não um dado biológico bruto, dificulta o desenvolvimento das funções psicológicas superiores ligadas à empatia e ao planejamento de longo prazo, como já indicavam Vygotsky e Luria ao tratar o desenvolvimento cognitivo como produto da atividade e da mediação social, não de maturação neural isolada.
Simbólico: o conhecimento foi substituído por “competências socioemocionais” de adaptação à precariedade. O professor, convertido em animador ou cuidador terapêutico, perde a autoridade epistêmica que antes o protegia; esvaziado o conteúdo que confere dignidade ao mestre, resta um corpo indefeso na sala.
Social: o desemprego crônico e o crime organizado rompem o tecido comunitário e a mediação família-escola. O único poder reconhecido pelo aluno passa a ser o poder nu: o do tráfico, que pune com a morte, ou o do Estado, que pune com o abandono. O professor, que não pune nem oferece recompensa material imediata, torna-se um ser sem função dentro dessa economia simbólica.
Essa degradação não atinge a todos igualmente. Recai, em primeiro lugar, sobre corpos de mulheres, a docência é profissão majoritariamente feminina, e sobre populações racializadas, tanto entre quem ensina quanto entre quem aprende. Como aponta Silvia Federici sobre o trabalho de cuidado, e Angela Davis sobre a interseção entre raça, gênero e exploração de classe, não há como separar essa violência escolar da divisão sexual e racial do trabalho que já determina quem sustenta, sem reconhecimento nem salário à altura, o desgaste diário dessa instituição.
O que descrevo aqui não deve ser lido como lamento conservador por uma suposta era de ouro perdida, mas como denúncia de uma mutação estrutural. Não é decadência de costumes; é a consciência de classe se manifestando na forma mais distorcida possível, um sadismo de sobrevivência, produzido por quem foi arrancado de qualquer perspectiva coletiva e empurrado para a luta bruta e individual pela sobrevivência.
O Limite que Desapareceu
Falta ainda responder a uma pergunta anterior à motivação. As seções anteriores explicam por que o aluno ataca o professor e por que a turma não reage. Todavia, nenhuma criança cresce achando que envenenar ou ferir alguém é brincadeira. Em algum momento do desenvolvimento, todo sujeito internaliza um limite: isso pode matar, isso eu não faço. A pergunta que falta não é por que o aluno tem raiva do professor. É onde esse limite foi embora.
O psicanalista Christian Dunker, ao pensar especificamente o mal-estar escolar brasileiro contemporâneo, ajuda a nomear essa lacuna: o limite moral nunca foi propriedade individual, uma espécie de freio interno que cada um carrega sozinho. Ele sempre foi relacional, sustentado pela existência de um outro que reconhece você como sujeito, e que você reconhece como sujeito em troca. Quando esse laço social se desfaz, o limite não é transgredido, como se ainda existisse e alguém escolhesse ultrapassá-lo. Ele deixa de estar disponível como categoria.
Judith Butler permite aprofundar essa mesma linha, esticando o que o texto já afirmou sobre necropolítica em microescala: se o sistema trata a própria vida do aluno como não passível de luto; descartável, sem enquadramento que a torne importante, ele não aprende apenas que sua vida não conta. Aprende que a categoria “vida que importa” simplesmente não se aplica a ninguém naquele espaço, incluindo o professor. Não é esquecimento de regra. É que toda regra contra matar pressupõe reconhecimento mútuo de humanidade, e é exatamente esse reconhecimento que a precarização retira dos dois lados da sala de aula. É a mesma reificação que Lukács descreve para o trabalho sob o capital, agora saturando o vínculo pedagógico: quando toda relação social é convertida em relação entre coisas, o professor deixa de ser sujeito e passa a ocupar o lugar de obstáculo-objeto, o capataz da fábrica que fechou.
Falta ainda nomear uma segunda figura, tão perturbadora quanto o agressor: a turma que assiste, ri, filma, ou simplesmente não se importa. Nunca se viu uma juventude tão apática diante da dor do outro, e essa apatia não pode ser explicada pela mesma chave que explica o ato do agressor, porque não é ato, é ausência de reação. Precisa de sua própria mediação teórica.
Se a empatia, como a violência, é função psicológica superior — mediada socialmente, não traço de caráter inato, como ensina Vygotsky —, então a indiferença coletiva não é vazio moral individual de uma geração inteira. É sintoma de que a mediação que produziria o vínculo (comunidade, reconhecimento mútuo, horizonte de futuro compartilhado) foi corroída pelo mesmo processo material que produz o agressor. Franco “Bifo” Berardi descreve esse fenômeno, no rastro do que Mark Fisher chamou de cancelamento lento do futuro: quando nenhum horizonte coletivo resta a uma geração, instala-se uma anestesia afetiva, não ausência de sensibilidade, mas desconexão entre o sofrimento alheio e qualquer sentido de relevância social.
Há também uma segunda camada, que Guy Debord ajuda a nomear: boa parte dessa cumplicidade hoje é performada para uma câmera. O colega que grava o ataque ao professor não está necessariamente insensível à cena; está processando-a na chave do espetáculo, o evento como conteúdo a circular, e não na chave da relação, do outro como sujeito que sofre. A violência deixa de ser só ato: vira também imagem, e a imagem exige platéia, não solidariedade.
Agressor e plateia, portanto, não são polos morais opostos, um cruel, os outros indiferentes. São dois produtos sintomáticos do mesmo processo de dessubjetivação: a mesma precarização material que arranca o agressor de qualquer perspectiva coletiva é a que dissolve, nos colegas, o próprio tecido de reconhecimento que tornaria a dor do professor uma dor relevante.
Do Diagnóstico à Práxis
O copo com vidro e a água envenenada anunciam uma barbárie em que a solidariedade de classe foi rompida. A resposta burguesa será câmeras, detectores de metal, policiamento, militarização, transformando a escola em presídio juvenil e aprofundando a lógica que produziu o problema.
A resposta que interessa não pode se limitar à denúncia da falta de psicólogos nas escolas ou mais rigor punitivo. Ela exige duas frentes concretas: a organização coletiva de professoras e professores, via sindicato, via categoria, não via heroísmo individual, como forma de recompor o elo de solidariedade que a precarização rompeu; e a exigência radical de uma escola que reconecte o trabalho intelectual ao destino material dos alunos. Enquanto a escola for estação de espera para o desemprego, o professor seguirá sendo o carcereiro a ser atacado. O sadismo não desaparece com psicologização, mas com a transformação das condições materiais que convertem a vítima em algoz e o saber em veneno.
Por Lígia Bacarin
