A “liberdade” pra inglês ver e a pedagogia da submissão do 13 de Maio
O apagamento da história nunca foi um acidente pedagógico. Foi um projeto político.
Um povo sem memória não desenvolve consciência de rejeição. Aceita o absurdo como normalidade histórica. Aprende a chamar violência de ordem, privilégio de mérito e exploração de oportunidade. É assim que a elite brasileira sobrevive há mais de cinco séculos: não apenas controlando a economia, mas colonizando a percepção da realidade. Esse é o papel da ideologia burguesa na concepção de Marx.
A historiografia oficial transformou genocídio indígena em “catequização”, escravidão em “mão de obra”, ditadura em “revolução” e desigualdade em consequência natural da vida. A barbárie foi higienizada para que não produzisse indignação coletiva.
O capitalismo brasileiro e as origens escravocratas
O capitalismo brasileiro nunca rompeu verdadeiramente com a lógica colonial. Modernizou os métodos, mas preservou a estrutura.
A escravidão formal acabou em 1888. A lógica da exploração extrema, não.
O trabalhador terceirizado sem direitos, o entregador que pedala doze horas por dia, a empregada doméstica herdando relações servis, o jovem negro morto pela polícia antes dos 25 anos e o indígena expulso de sua terra pela mineração ilegal fazem parte da continuidade histórica de um mesmo modelo de país.
A jornada 6×1 é a continuidade de uma lógica escravocrata e feudal, pois um dia de “descanso” sempre existiu para repor as energias exauridas pela superexploração do trabalho.
A abolição não integrou os negros à sociedade. Apenas retirou oficialmente – nos papéis – as correntes e abandonou milhões à própria sorte. Como escreveu Florestan Fernandes, a abolição brasileira foi uma “espoliação extrema e cruel”. O ex-escravizado saiu juridicamente livre, mas socialmente condenado.
Libertados e jogados na sarjeta da vida social.
Enquanto isso, as elites brasileiras seguiram acumulando terra, riqueza e poder político. Os sobrenomes mudaram pouco. Os privilégios, menos ainda.
A fragmentação como método de dominação
O sistema aprendeu algo importante: um povo dividido luta menos.
Por isso, toda forma de fragmentação interessa às classes dominantes. Não porque as pautas identitárias sejam ilegítimas – pelo contrário, elas nascem de opressões reais e históricas -, mas porque o capitalismo possui enorme capacidade de absorver revoltas isoladas sem alterar sua estrutura fundamental.
O mercado consegue conviver perfeitamente com a diversidade estética, desde que não se questione a concentração de riqueza.
Aceita negros na publicidade, mulheres em cargos de chefia e discursos progressistas em campanhas publicitárias – desde que os bancos continuem lucrando, os monopólios permaneçam intactos e a desigualdade siga funcionando como engrenagem econômica.
A lógica é simples: transformar luta coletiva em consumo individual. Sem consciência de classe, as dores sociais se tornam arquipélagos isolados. E arquipélagos raramente derrubam impérios.
É por isso que a elite teme tanto qualquer pensamento que conecte as opressões ao funcionamento do capitalismo. O problema não é apenas a revolta. O problema é quando a revolta encontra explicação histórica.
A memória é uma arma política
Não é coincidência que setores conservadores odeiem universidades, desmontem políticas de memória e ataquem professores de história. Toda ditadura tenta controlar a narrativa do passado porque sabe que a memória produz resistência, exemplo e indignação.
Um povo que conhece Canudos, Palmares, a ditadura militar, os massacres indígenas e os porões da tortura dificilmente aceita passivamente discursos autoritários embalados em patriotismo barato. O esquecimento interessa aos dominadores.
Por isso, o Brasil convive até hoje com torturadores homenageados, golpistas tratados como estadistas e bilionários vistos como “empreendedores visionários”, mesmo quando enriquecem explorando trabalhadores precarizados.
A pedagogia dominante não ensina emancipação. Ensina adaptação e submissão.
Ensina o pobre a sonhar em virar rico – nunca a questionar por que existem poucos ricos e tantos pobres.
Ensina competição em vez de solidariedade. Meritocracia em vez de igualdade de condições e oportunidades.
O resultado é um país onde milhões defendem exatamente as estruturas que os esmagam.
O novo colonialismo veste terno e fala inglês
O imperialismo contemporâneo não precisa, necessariamente, de tropas ocupando territórios. Ele opera por meio das finanças, das big techs, dos organismos internacionais, da dependência econômica e da colonização cultural.
O Brasil exporta soja, minério e petróleo bruto enquanto importa tecnologia, plataformas digitais e dependência. É a velha lógica colonial atualizada.
As elites nacionais cumprem novamente o papel histórico de intermediárias da submissão. Agem como administradoras locais dos interesses externos.
Falam em patriotismo enquanto entregam patrimônio público.
Defendem soberania enquanto subordinam a economia nacional ao mercado financeiro internacional.
Erguem bandeiras do Brasil ao mesmo tempo em que reproduzem agendas importadas dos centros de poder global.
O viralatismo das elites brasileiras talvez seja uma das maiores continuidades da nossa história.
A cultura escravocrata continua presente nas elites políticas e econômicas, que mantêm a postura de senhores de engenho. Trata-se de uma elite retrógrada e reacionária até mesmo em relação à modernidade capitalista.
Se a elite empresarial brasileira não fosse fruto do escravagismo, abraçaria Lula como o melhor gerente do capitalismo nacional.
A necessária consciência de rejeição
Conhecer a história do Brasil é produzir indignação e combustível para a luta contra o sistema.
Indignação diante da escravidão.
Do genocídio indígena.
Das ditaduras.
Da fome naturalizada.
Da desigualdade obscena.
Da violência convertida em rotina.
Dos preconceitos de raça, gênero e classe.
Da polícia militarizada – modernos capitães do mato – herança da ditadura, perseguidora de negros e pobres da periferia.
Talvez esse seja o maior medo das classes dominantes: que o povo brasileiro finalmente perceba que não nasceu para sobreviver eternamente de migalhas, mas para disputar o próprio destino histórico.
Em 13 de maio de 1888, foi assinado um documento que declarava o fim da escravidão. Na prática, porém, a população negra continuou sendo explorada, negligenciada e privada do direito à liberdade e a uma vida digna.
Desde então, foi por meio da luta e da mobilização coletiva da população negra que direitos e conquistas foram sendo acumulados ao longo desses anos de resistência. Nada foi dado. Não foi um papel assinado por uma princesa branca que garantiu o que a população negra possui hoje.
Um mar de desigualdades e estruturas raciais ainda precisa ser desconstruído e combatido de frente, com todos os recursos e aliados necessários, que precisam compreender os papéis que ocupam para que se alcance a igualdade racial, de classe e de gênero.
Como já defendemos em outro texto, é imperiosa a criação de uma Comissão Permanente de Memória, Reparação e Reforma do Sistema.
A história ensina. É necessário haver alunos com vontade de aprender para transformar.
Por Francisco Calmon e Letícia Mendonça
