A memória tem latente a espada da Justiça.
A barbárie que une García Lorca, Victor Jara e Honestino: memória contra o esquecimento
Há mortes que não terminam com o assassinato. Quando um Estado autoritário tenta apagar uma vida, sua história e até o paradeiro de seu corpo, a disputa pela memória torna-se também uma disputa pela democracia.
É esse o fio que atravessa a história de Federico García Lorca, Victor Jara e Honestino Guimarães. Três homens, três países, três contextos históricos distintos, mas unidos pela violência política de regimes autoritários e pela tentativa de silenciar vozes identificadas com a transformação social.
A reflexão parte de artigo de Dorrit Harazim, publicado em O Globo e reproduzido pelo blog Democracia Política e novo Reformismo. O texto recupera os 90 anos do assassinato de García Lorca, poeta espanhol executado por forças ligadas ao franquismo em agosto de 1936. Lorca não era filiado a um partido de esquerda, mas sua produção cultural, suas posições e sua vida pessoal foram suficientes para transformá-lo em alvo da perseguição fascista. Seu corpo jamais foi encontrado.
A história se repete, com outras circunstâncias, no Chile. Victor Jara, músico e símbolo da cultura popular latino-americana, foi preso após o golpe militar que derrubou Salvador Allende, em setembro de 1973. Levado ao Estádio Chile, foi torturado e assassinado. Seu corpo apresentava dezenas de perfurações de bala, além de sinais de extrema violência. Décadas depois, a Justiça chilena continuou responsabilizando os agentes envolvidos no crime.
No Brasil, a trajetória de Honestino Guimarães carrega a mesma marca da violência de Estado. Estudante de Geologia da Universidade de Brasília e militante da Ação Popular, Honestino tinha apenas 26 anos quando foi preso e desaparecido pelos órgãos de repressão da ditadura militar, em 1973. Sua família nunca recebeu uma resposta digna sobre seu destino.
A diferença brasileira é particularmente dolorosa. Enquanto Chile e Argentina avançaram, em diferentes momentos, na responsabilização judicial de agentes das ditaduras, o Brasil mantém uma trajetória marcada pela anistia dos crimes cometidos pelos agentes da repressão. A Lei da Anistia de 1979 permanece no centro de um debate histórico e jurídico que o país nunca conseguiu encerrar satisfatoriamente.
Por isso, lembrar Honestino é discutir o presente. A cinebiografia Honestino, atualmente em cartaz, recoloca diante das novas gerações uma história que corre o risco de desaparecer da memória coletiva. O próprio artigo chama atenção para o número reduzido de espectadores nas sessões e para a ausência de maior divulgação sobre a história dos desaparecidos políticos brasileiros.
García Lorca, Victor Jara e Honestino foram vítimas de diferentes experiências autoritárias. Não é possível igualar mecanicamente os contextos históricos da Guerra Civil Espanhola, da ditadura chilena e da ditadura brasileira. Mas é possível reconhecer o denominador comum: a barbárie política que transforma a divergência em crime, a cultura em ameaça e o opositor em inimigo a ser eliminado.
É justamente por isso que a memória importa. O autoritarismo não desaparece simplesmente porque uma ditadura termina. Ele deixa instituições, silêncios, traumas e versões distorcidas da história. Quando uma sociedade deixa de lembrar seus mortos e desaparecidos, abre espaço para que a violência seja relativizada e até celebrada.
A memória, portanto, não é uma homenagem passiva. É uma forma de resistência democrática.
Como lembra o artigo de Dorrit Harazim, entre o poeta espanhol, o músico chileno e o estudante brasileiro, o denominador comum foi a barbárie.
