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Meu Pai, um exemplo de dignidade.

Meu Pai, um exemplo de dignidade.

Tenho excelente lembrança dele na minha infância.

Ele levava-me de mãos dadas para o passeio a pé, aos sábados, para o cafezinho numa cafeteria, que ele tomava e eu ganhava chiclete, não dele, mas do caixa do estabelecimento. Mesmo tendo balas e bombos, eu aprendi que não devia pedir, quando o fazia eu sentia o seu constrangimento, pois não havia orçamento. 

Era o único pai da nossa cidade que fazia esse passeio no centro com o filho infanto, por isso, eu não encontrava colegas, filhos de pais amigos do meu. 

Um de seus amigos e que trabalhava com ele, advogado, quando se encontravam, me dava um Cruzeiro, sempre um nota novinha, a figura da nota era a do Marechal Hermes da Fonseca. Eu achava a figura impoluta, o máximo!

Meu pai era do tipo super sincero, se não gostasse ou dizia na lata ou cortava a conversa.

Trabalhava muito, era gestor público e de autarquia, e ainda tinha um pequeno comércio, uma livraria. 

Na minha puberdade mostrou ser um tigre na defesa dos filhos. 

Curti pouco o meu pai, comecei a me dedicar à política, fazendo movimento estudantil e depois luta revolucionária, aos 14/15 anos, e aos 17 deixei minha terra, Vitória, para atuar numa dimensão maior da luta e fui para o Rio de Janeiro.

Os primeiros cômicos que assisti fui levado por ele.

No Rio e em vitória passamos a nos ver para matar a saudade, resumos rápidos sobre o meu trabalho, que fora ele que arrumara para mim, no SESI nacional, ele era Superintendência no Sesi Regional, e assim seguiu, até que ficou doente, câncer, e passei a me dedicar, permanecendo as noites no HOSPITAL, no RJ e posteriormente em sua casa em Vitória. 

Minha mãe sabia em teoria como aplicar injeção, mas nele não se sentia segura, ensinou-me e passei a injetar os remédios, dolantina e dologene, para diminuir as terríveis dores que sentia no intestino. 

Quando ele brincava que os seus próximo filhos seriam chamados de Dolantina e Dologene, eram os raros momentos até uma nova crise. 

Mesmo ele doente e em sua casa permaneci atuando, com máquina datilográfica e mimeógrafo à álcool, escrevia e imprimia os panfletos.

Também não fiz luto. 

Meu pai faleceu aos 52 anos, eu tinha 20. 

Na conjuntura de minha vida de fuga, sequestro e tortura, ele não estava mais presente. Teria sido uma profunda tristeza para ele e provavelmente não aguentaria, pois era infartado.

Deixou muitos amigos, era admirado pela honestidade e simplicidade, ajudava a QUEM PODIA. 

Foi delegado do SAPS e em sua gestão foi inaugurado o primeiro restaurante popular no cento de Vitória, política de Getúlio Vargas para combater a fome. 

Dedicou 15 anos de sua existência de adulto ao SESI e nunca houve uma homenagem, um reconhecimento. É a vida em vida e em morte.

Em ambos os empregos sofreu muito assédio e pressão para favorecimentos e por inveja aos cargos muito cobiçados.

Nunca cedeu. Pagou com a saúde. Aos 44 anos teve infarto cardiovascular.

Em vida, bajulação e mimos; em morte, um cortejo que parou a cidade, e muito breve o esquecimento.

Saudades. meu velho, sempre lembro de você na cadeira de balanço, de jacarandá, lendo os jornais ou algum livro que te presenteara.

Quanto a mim, pai de três, fui um pai ausente e com muito erros. Mas viva a democracia que ajudei a construir no meu pequeno mundo.

ARLINDO FERREIRA DA SILVA, UM PAI MUITO AMADO PELA ESPOSA E SEUS CINCO FILHOS. 

Vitória, 9, agosto, 2026

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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