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 O que é ser revolucionário na atualidade?

Para fazer uma revolução é mister que haja condições subjetivas e objetivas propícias. As subjetivas podemos resumir em consciência e organização. As objetivas como crise e anarquia ou saturação do modo de produção da economia.

Na dialética da luta política, ação e organização se retroalimentam. Organização sem ação produz o burocratismo diletante, ação sem organização produz aventureirismo. 

É justamente por isso que ser revolucionário, na atualidade, significa defender a necessidade histórica da revolução social, compreendida como a transformação estrutural das relações econômicas, políticas e sociais que sustentam o capitalismo. Significa formar consciência, organizar os trabalhadores e construir o protagonismo popular, para que, quando as condições históricas amadurecerem, a ruptura entre capitalismo e democracia possa abrir caminho para um novo projeto de sociedade. 

Precisou a casa ruir após o golpe parlamentar-judicial de 2016 e instalar-se o golpismo aos direitos dos trabalhadores, ao patrimônio e à soberania nacional, para acordar a todos da letargia política no exercício da luta de classes.

A luta pela redemocratização, iniciada nos anos 80, após a anistia, levou a esquerda gradativamente a abandonar a concepção de luta de classes como eixo central das transformações (ou retrocessos) sociais. Adotou, em substituição, uma visão bonapartista do Estado, a serviço de todas as classes, e a crença na sua conciliação, como foram os governos de Lula e Dilma.

Quando a casa começou a ruir com o golpe de 2016, o diagnóstico de que a esquerda estava desconectada das bases foi unânime, mas parou por aí e nas críticas ao PT. A causa das causas ficou à margem, à espera de ser resgatada para o centro da questão.

“De tempos em tempos os operários triunfam, mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas a união cada vez mais ampla dos trabalhadores” (MARX; ENGELS, 2010).

A concepção e operação da luta de classes se concentram no eixo perene de Formar, Organizar, Protagonizar (FOP) os trabalhadores, para construir o empoderamento e a consciência de classe de um projeto alternativo ao capitalismo e à democracia burguesa.

A Formação refere-se ao processo de aprendizado crítico e conscientização. Envolve educação política, social e cidadã, desenvolvimento de capacidades, troca de saberes e construção de consciência sobre direitos, história e realidade social.

A Organização diz respeito à estruturação coletiva. Inclui a criação de grupos, movimentos, associações ou redes, definição de estratégias, formas de atuação, liderança compartilhada e mecanismos de tomada de decisão.

A Protagonização é o momento em que os sujeitos passam a atuar como agentes centrais de transformação, e não apenas como beneficiários. Implica autonomia, voz pública, incidência política, participação ativa em espaços de decisão e construção de narrativas próprias.

Em conjunto, Formação, Organização e Protagonização expressam uma dinâmica contínua. Aprende-se, organiza-se e atua-se como protagonista.

Ao abandonar a concepção de luta de classes e adotar a da conciliação, a arena de atuação ficou especialmente circunscrita ao cercadinho institucional, e as relações republicanas foram a expressão comportamental do bonapartismo caboclo. Como efeito em cadeia, produziu-se a burocratização e alienação dos partidos de esquerda e das entidades dos trabalhadores como sujeitos da transformação estrutural.

Essa adoção vai ocasionar, na dialética das lutas sociais, um divórcio amigável entre as lutas identitárias, como a pugna dos negros, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, de um lado, e a luta matriz, que é a luta coletiva de classes, de outro. Amigável, mas que nutriu a concepção bonapartista-republicana, consolidou o peleguismo, ampliou a atomização, e gerou uma plêiade de líderes sociais que viveram – e parte ainda vive – às custas e como satélites dos governos, melhor ainda: como pirilampos.

Nestas últimas décadas o vermelho da esquerda desbotou. Daí a adjetivação de esquerda desbotada, esquerda rosinha-salmão e esquerda cosmética – que é a minha preferida. Com quaisquer denominações, estamos, como sempre estivemos na história, entre a predominância do peleguismo ou do esquerdismo bravateiro.

-Francisco Celso Calmon.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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