A segunda morte de Celso Lungaretti
Morreu no último dia 18 Celso Lungaretti, que foi militante da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária, organização dirigida pelo Comandante Carlos Lamarca. Sua morte foi noticiada com certo destaque até pela grande mídia comercial.Foi falado que ele combateu a ditadura, que foi torturado, que esteve preso pela ditadura, que defendia os direitos humanos e foi glorificado por tentar se defender da esquerda, que o teria acusado de delatar a localização de um campo de treinamento de guerrilhas de sua organização.
Mas, quem foi Celso Lungaretti na história do Brasil?Foi um militante da área do setor de inteligência da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Realmente, ele foi preso, realmente foi muito torturado pelo DOI-Codi do Rio de Janeiro, mas a esquerda não o acusava de ser responsável pela localização do campo de treinamento de guerrilhas, comandado pelo Comandante Carlos Lamarca, no Vale do Ribeira.
O que pesava contra ele era ter sido um dos primeiros a ir para a televisão dar declarações a favor da ditadura e contra quem lutava contra o terrorismo de Estado.Essa é a verdade. O resto é douração de pílula para criminalizar a esquerda, como sempre é feito pela direita e pelos reformistas.Conheci Celso Lugaretti muitos anos depois disso tudo. Eu tinha um site chamado Resgate histórico em que eu publicava documentos sobre nossa luta contra a ditadura. Numa dessas publicações, reproduzi um documento publicado pelo COOJORNAL, excelente publicação de uma cooperativa de jornalistas do Rio Grande do Sul, que falava sobre a experiência da chamada Guerrilha do Vale do Ribeira.
Era uma matéria baseada num documento do exército.O relatório dos militares tinha uma informação de que os militares haviam descoberto o campo de treinamento por relatos de moradores da região e não falava no nome de ninguém. Menos ainda de Celso Lugaretti. Por causa disso, ele me procurou, através do email do site. Propus que ele viesse pessoalmente falar comigo e assim foi feito.
Ele chegou com um lenço nas mãos para enxugar uma secreção inexistente de seu ouvido. Falou muito que aquele documento era importante para ele, que tentava há anos provar sua inocência da acusação de ter delatado a localização do campo de treinamento, que a esquerda era injusta com ele, que agora poderia provar sua inocência e coisas assim. Perguntei a ele se sabia quem era eu, que me respondeu que sabia que eu era o editor do site e nada mais. O diálogo com ele foi o seguinte:
- É isso que você sabe sobre mim?
- Sim. Você não é o editor do site?
- Sim. Eu sou o editor do site, mas também fui militante do MRT. Quando você foi para a televisão renegar nossa luta e defender a ditadura o Carlos Lamarca estava na minha casa e assistimos suas declarações à imprensa. Todos nós gritamos, inclusive eu, que deveríamos te matar para dar o exemplo com traidores. Apenas Carlos Lamarca foi contra. Te defendeu, nos disse que era visível que você tinha sido torturado e que nós não poderíamos completar o serviço da ditadura.
Lungaretti tentou se defender do que eu dizia e mudou um pouco da conversa. - A VPR tinha o dever de me defender. Tinha que me tirar no sequestro.
- Como iria te defender e tirar no sequestro se você foi para a televisão? Você se negaria sair com medo de ser justiçado no exterior.
- Mas, tiraram uma companheira da direção que falou muito.
- Ela foi tirada para parar de falar na tortura e era viúva de um comandante.
Ele ficou mudo com o fato de eu saber dessa história da companheira. - Lugaretti, a esquerda não te deve nada. Você é que deve para a esquerda. Para de acusar a esquerda e passa a acusar a ditadura, os torturadores e as torturas. Se você acusar a direita e os torturadores, eu vou te ajudar a se levantar dessa queda.
- Então, temos um acordo?
- Não dá, Lungaretti. Seu histórico em matéria de acordos é péssimo.
Depois disso, ele passou a se posicionar contra a ditadura e até me convidou para o lançamento do livro dele. Ao falar no lançamento, causei um certo mal-estar, pois defendi a esquerda e disse o que penso sobre a ida dele para a televisão.
Hoje a história de Celso Lungaretti é contada como se ele fosse injustiçado pela esquerda. Como disse a ele, a esquerda não deve nada a ele. Pelo contrário. É óbvio que ele foi uma vítima das torturas e que foi levado a dar declarações contra nossa luta e a dizer que a esquerda enganava a juventude para levá-la para uma aventura suicida, coagido pelas torturas. Mas isso não o absolve da responsabilidade de ter ido para a televisão e dizer que o Comandante Carlos Lamarca era um alucinado, que queria fazer um duelo com o delegado Sérgio Fleury. Chegou a dizer que Lamarca usava o nome de guerra de Cid por se comparar a El Cid ou que usava o nome Cesar por se achar um imperador romano. Nosso Comandante ficou profundamente magoado com tão absurdas calúnias.
Eu nunca julguei pessoas que não suportaram as torturas e deram informações ao inimigo. A culpa é do torturador e nunca do torturado. Lungaretti não suportou as torturas e foi para a televisão dar declarações contra nós, caluniou nosso Comandante Carlos Lamarca e defendeu a ditadura. Não dá para culpá-lo por isso. A culpa desse ato é dos torturadores, não dele. O que não aceito é ele ter persistido no erro e não se voltar contra a ditadura e os torturadores.
A esquerda tem vários casos de companheiros que foram igualmente torturados, que foram coagidos a dar esse tipo de declarações e que conseguiram se levantar. Contaram com a ajuda de companheiros nessa volta à superfície. Esses foram feridos pelas torturas, foram machucados pelo inimigo, mas não aceitaram o papel de traidores ou renegados. Com certa dificuldade, se voltaram contra seus algozes e voltaram a militar no campo da esquerda. Respeitáveis companheiros, sobreviveram e levantaram a cabeça. O mais conhecido foi o operário Manuel Henrique, que fiz questão de abraçá-lo e agradecer por se levantar.
Marcus Vinicius, Rômulo e André Massafumi foram os primeiros a ir para a televisão dar essas infames declarações. Seus rumos na vida são tão infames quanto. O primeiro vive recluso num sítio no interior de Minas Gerais, o segundo virou militante do partido integralista e o terceiro se matou. Massafumi deu palestras em quartéis e escolas falando mal da esquerda e bem da ditadura. Se matou enforcado e deixou um deprimente bilhete suicida em que dizia algo assim:
Meus amigos não são mais meus amigos e querem me matar. Meus inimigos agora se dizem meus amigos e querem me sufocar. Me sinto como se estivesse na praia, as areias querem me tragar e a maré quer me matar. Não tenho mais saída. Adeus.
Quando li esse bilhete de suicida deixei de lado meu ódio por ele e senti muita pena daquele trapo humano que virou. E senti muito mais ódio dos torturadores fardados que o mataram duas vezes.
Celso Lugaretti morreu moralmente quando foi para a televisão e não conseguiu se levantar para a vida e para a política. Só muito tempo depois se colocou numa posição contra a ditadura, contra as torturas e contra os torturadores. E agora sua morte física encerra essa tragédia cometida pela ditadura e pelos torturadores, que mutilaram gerações com sua política fascista.
Nossa palavra de ordem daqueles tempos brutais está viva e atual:
Abaixo a ditadura e fora o imperialismo!
E não podemos esquecer nunca de nossas companheiras e companheiros que ficaram pelo caminho, que deram suas vidas e suas mortes pelo nosso povo.
Glória aos que tombaram na luta!
Texto por Ivan Seixas
